terça-feira, 20 de março de 2018

Alberto Vais Sobrinho é Ouro Fino

Alberto Vais Sobrinho é Ouro Fino

Uma das maiores alegrias do cantor sertanejo são as modas de viola. "Muitas contam a minha história", diz ele


"Admiro a dupla Tião Carreiro e Pardinho"

Célia Pires


Alberto Vais Sobrinho mora em Américo Brasiliense. Faz dupla com Tião Canhoto e seu nome artístico é Ouro Fino. Em seu programa de rádio a música mais pedida é ‘Minha história’, uma espécie de autobiografia de Alberto e que retrata vários momentos de sua vida.
E por falar em vida, esse homem de coração sertanejo nasceu em Petrolândia, Santa Catarina, no dia 24 de maio de 1951. Filho de Paulo Luis Vais e de Laureci Vieira Vais. É irmão de Roberto, Gilberto, Célio, Maria Paulina, Zenita e dos saudosos Maria Liberaci, Norberto e João.
Na cidade natal ficou até a idade de 20 anos, onde começou a trabalhar na roça aos 14 anos, na fazenda Rio D'Jango da família Guetta que praticamente o adotou. Só voltava para casa nos finais de semana.
O problema foi a escola, pois só cursou até a quarta série na escola Hermes Fontes. "A gente precisava ajudar os pais. Éramos em oito".
Para ir para casa nos finais de semana ia a pé. Eram 8 quilômetros de pernada para ir e também para voltar.
Nesta fazenda ficou durante cinco anos, pois em determinado momento achou que aquilo não era vida para ele. Assim acabou indo se aventurar no Paraná, na cidade Vila Mercedes, onde trabalhou na 'enxada e no machado'.
A passagem no Paraná foi curta, pois ficou doente por conta de comer o miolo do abacaxi e acabou com as 'paredes' de seu estomago. Até hoje não pode nem ver abacaxi! "Chegava da roça e comia abacaxi que tinha em volta da casa. Como adoeci acabei retornando para Petrolândia".
Alberto conta que Petrolândia, que tem como meio de subsistência a lavoura,  tinha como referência uma fecularia. Não tinha quase nenhum tipo de diversão como cinema. Para se distrair a rapaziada pescava e jogava bola aos domingos quando sobrava uma brechinha. "Hoje tem até umas praças legais lá, mas pouco frequentadas, pois o pessoal rala a semana inteira e quer mais é descansar, ficar sossegado nos finais der semana".
Depois de recuperado foi novamente trabalhar na roca, por empreitada até que decidiu ir tentar a sorte em São Paulo. Como a irmã Liberaci já morava na cidade ficou um tempo na casa dela até se acostumar com a cidade. Posteriormente foi morar em uma pensão. "A viagem para São Paulo foi feita junto com um amigo que levava uma carga de cebola para o Ceasa. Foram 12 horas de viagem".
Questionado sobre qual foi a sua percepção de São Paulo, conta que chegou assustado como a maioria.

Um metalúrgico

Quando chegou, o cunhado Narbal o esperava no Ceasa. "Durante o tempo que fiquei na minha irmã, em Santa Adélia, foram quatro meses sem trabalhar. Não podia começar, pois os meus documentos que havia esquecido no hotel não chegavam. Quando chegaram fui trabalhar em uma metalúrgica, a Nordon, que ficava em Santo André. Isso foi em 1972".
Depois de três anos na Nordon como ajudante de caldeiraria achou que a coisa não estava muito boa e novamente retornou para a terra natal, onde novamente foi trabalhar na roça até que arrumou serviço na metalúrgica Rio Sulense. Desta vez como ajudante de soldador. 'Fiquei nesta metalúrgica durante cinco anos. Quando já dominava o ofício senti que era hora de retornar para São Paulo. E já na capital voltei a trabalhar no mesmo lugar, na Nordon. Ali fui contratado como meio oficial de soldador. Permaneci ali de 79 a 2003 onde acabei me aposentando", conta ele acrescentando que quando entrou novamente na empresa fez uma prece, no banheiro, profetizando que só sairia dali aposentado.
Na Nordon, de meio oficial passou a soldador, depois para soldador especial. "A firma prestava serviços para a Petrobras, cervejaria, para a Rhodia, entre outros".
Alberto conta que em 97 se aposentou, mas continuou trabalhando. Em 98/99 a Inepar (depois IESA) comprou a Nordon e em determinado momento, em 1999, veio para Araraquara. "Entre as centenas de soldadores fui um dos escolhidos para vir para a Araraquara. Fui trabalhar em Américo. Fiquei na empresa até 2003, quando a empresa me demitiu".
 Quando veio para Araraquara foi montada uma república na Vila Xavier para os funcionários e aos poucos cada um foi buscando a família. "A mudança da família foi feita no dia do meu aniversário, 24 de maio. Fomos morar em Américo Brasiliense onde estou até hoje". 
Alberto casou com a Maria do Socorro Moura Vais que conheceu em São Paulo. O grande amor morava na mesma rua onde morava sua irmã. "Nos casamos em 1982. Temos dois filhos, Juliana e os gêmeos João Paulo e Júlio Cesar. Vai fazer 19 anos que moramos em Américo, Vila Cerqueira, mas minha mulher brinca que não quer morrer na cidade não. E eu digo brincando: e a gente tem lugar para morrer?".
Sempre que pode Alberto vai para Santa Catarina, especialmente para a cidade natal visitar os familiares que ficaram por lá.

Recanto Caipira

Alberto é um apaixonado por música. "Sempre gostei. Desde o tempo da Radio Nacional de São Paulo, quando meu pai ligava o rádio às 20h30 e a gente ficava escutando os caipiras. Meu pai tocava cavaquinho e, ele e o irmão, estavam sempre juntos bem como os tios por parte da mãe eram todos músicos, tocavam gaita (sanfona). Acho que essa coisa de música está no sangue".
Quando já estava em São Paulo, Alberto conheceu o saudoso Rondon, um senhor que tocava viola e cantava muito bem. Começamos a cantar junto e gravamos a música 'Ferreirinha'. Eu tocava viola e foi Rondon que me ensinou a tocar".
Com Rondon a dupla se separou somente por conta da vinda de Alberto para Araraquara, mas sempre que podia o amigo vinha para a região para tocarem juntos. Assim cantaram em muitos e muitos aniversários. "Esse não era parceiro, era amigo que ainda a gente sente muita falta dele".
Em dado momento, Alberto conheceu João Platino, de Araraquara, que ministrava a ele aulas de viola. "Juntos gravamos o disco 'Seresteiro da Lua' e em seguida o volume 2 que entra uma música intitulada 'Minhahistoria' composta em parceria com o compositor  Rubens Simões, de Brotas. é a minha vida. Fala de Araraquara e de Américo Brasiliense, dos meus filhos, de quando eu trabalhava em Petrolândia na junta de boi, do cachorro Guarani".
Posteriormente, através do amigo locutor Donizete de Paula entrou para a rádio Maranatá FM, de Américo. A parceria com Platino, mas a amizade continua. 
Alberto apresenta seu programa 'Recanto Caipira' há seis anos, das 17 às 19 horas, de segunda a sábado ao vivo e a cores. Uma das músicas mais pedidas e a 'Minha história'.
Atualmente Alberto faz dupla com Aguinaldo Ribeiro Feitoza, oTião Canhoto, que conheceu através da esposa do mesmo, Conceição que ligava na rádio pedindo músicas. "Um dia ela disse que seu marido já tinha tocado muita viola e cantado. Outro dia em que ela ligou perguntei se poderia falar com ele. Depois de um bom bate papo resolveram se conhecer. Nasceu a dupla Tião Canhoto e Ouro Fino. 
Alberto tem o nome artístico de Ouro Fino, nome que sonhou. “No sonho alguém me perguntava qual o nome do meu parceiro. Eu disse que era João Platino e a pessoa me sugeriu que colocasse Ouro Fino. Assim ficou João Platino e Ouro Fino. Pegou”. 
Antes de trabalhar no rádio trabalhou na Metal Brás, cujo proprietário Vanderlei que me chamava de violeiro me deu uma viola de presente. "Comecei a me dedicar somente ao rádio e à música e tocava em casa com meu filho João Paulo, que é professor de viola, até conhecer o Tião Canhoto. Já o meu filho Júlio trabalha como programado na rádio. Já a Juliana, minha filha, fez psicologia".
A dupla com Tião já e o primeiro trabalho juntos é o CD 'Recordação de mineiro'. O bar do Baixinho, em Américo, acolhe a dupla todos os domingos, do meio-dia às 16 horas, com muito modão sertanejo.
Pode se encontrar no You Tube trabalhos de uma antiga parceria com João Platino e no Facebook da rádio informações sobre seu programa. 
Contato: 9997132733.

Matéria publicada em 17 de março de 2018

Valdir Massucato, um patriota!

Valdir Massucato, um patriota!      
“Ficar só no whatsapp criticando não adianta”

Da redação
“A vida, às vezes, nos dá toques tão sutis que nossa antena não pega .Por isso percorri não somente o Caminho  de Santiago, mas de mim mesmo. Agucei a minha percepção  e hoje sinto até a energia das pessoas”. Essas são palavras do empresário Valdir Massucato,  um inconformado com a corrupção assassina do país, que segundo ele, mata entre outras coisas, a  educação e  a saúde. Ele conta que não foi um garoto pobre, pois seu avô tinha propriedades, mas viveu no meio da pobreza e sabe das dificuldades que ela traz. E embora venha de uma família politizada, o que fez com que Valdir Massucato pensasse em entrar para a politica foi a corrupção. “Acho que pessoas do bem, pessoas novas não entrarem na politica, o caminho fica aberto para corruptos. Então, o me instigou nesse momento foi essa corrupção desenfreada que o país está passando. Embora eu não precise disso, poderia estar curtindo a minha vida, alienado, mas não posso ver e ficar quieto. Ficar só no whatsapp criticando não adianta”.
Por essa razão, Massucato migrou do PSB para o Patriota de Araraquara, pois acredita na legenda, além de compartilho de muitas ideias defendidas pelo partido. “ Quero o melhor para a minha cidade e vou contribuir para que o partido cresça ainda mais”, diz ele que deverá se candidatar a um dos cargos na próxima eleição.

(Matéria publicada em 18 de fevereiro de 2018)
Um pouco de Massucato
Valdir Massucato nasceu no dia 20 de dezembro de 1960, em Boracéia que dista 80 quilometros  de Araraquara .É filho de Aurélio Massucato e Dines Massucato e irmão mais velho de Paulo. Esposo apaixonado desde sempre de Elaine Sgavioli Massucato e pai amoroso de Bárbara e Isabela.
Quando tinha 12 anos,o pai, uma pessoa extremamente generosa e querida em Boraceia foi eleito prefeito. Com isso, a família se mudou  da zona rural para a cidade. Mas para o menino tímido que chegava da fazenda e já com destaque como filho de prefeito teve momentos bons, mas outros não propriamente constrangedores, mas não tão agradáveis”.
Embora tenha sido prefeito somente uma vez, a prefeitura de Boraceia ganhou o nome de ‘Eugênio Massucato’ em, homenagem ao grande ser humano que foi  às suas realizações, como por exemplo, conseguir o asfalto de Boracéia/Pederneiras e Boracéia/Bariri. Era tudo estrada de terra. Uma outra conquista foi a implantação do Colegial para a localidade, pois para cursar- lo era necessário se deslocar para outra cidade. “E meu era tão generoso que não quis seguir carreira politica; Ele achava assim como também acho que politica é para servir. Então foi candidato uma vez, na época pela Arena, fez a sua parte e achou que deveria dar a vez para outro”.

Secos e molhados

Morar na fazenda Bairro Mombuca(colônia italiana) era para ele a coisa mais gostosa do mundo onde o lazer era nadar no rio Tietê que passava pertinho, pescar e jogar futebol. ‘Meu avô, Paulo Pinton, tinha um armazém de secos e molhados e eu gostava muito de trabalhar com ele. Isso desde os sete anos. Era uma época em que se podia trabalhar e era gostoso. Ficava ajudando ele no balcão”.
Valdir faz uma viagem ao passado e conta que esse seu avô tinha uma visão muito empreendedora para os padrões da época. ”Na venda  tinha máquina de beneficiar arroz, milho. Ali se fazia fubá , tinha açougue e barbearia”.
Valdir sempre gostou de estudar e na escola da fazenda, além de aprender, como não tinha muitos alunos como nas escolas atuais, as aulas era para ele e para os amigos um momento de encontro.
O empresário ainda se surpreende ao lembrar que na fazenda onde nasceu, uma professora ministrava aulas para a primeira, segunda e terceira séries. Eram três lousas na sala de aula, “Ela tinha o controle da classe e quando tive que fazer o quarto ano, tinha que sair do sitio e andar 8 quilômetros de bicicleta para ir até outra escola. Brinco que minha voz é rouca de tanta poeira que engoli. Só não ia de bicicleta quando chovia ou quando estava muito frio, pois meu pai me levava”.
Aprendiz
Na época em se mudaram para a zona urbana de Boracéia, seu avô arrumou para Valdir para que fosse depois das aulas ser aprendiz em um escritório de contabilidade, já que não havia mais a possibilidade dele ajudar no armazém de secos e molhados e também para que não ficasse na rua. “O fato de ter trabalhado com meu avô desde criança e em um escritório de contabilidade dos 12 até os 17 anos foi muito importante para a minha vida profissional. O nosso lazer era no final de semana por que o restante era trabalho e escola. E quanto à remuneração eu nem recebia. Meu pai que me dava algum dinheiro, porque não era pelo dinheiro, mas sim pelo aprendizado”.
Posteriormente , como o pai fosse corretor de café, a família se mudou para Bariri, onde ficava sediado o escritório.  Em razão disso, terminou o curso médio na referida cidade onde ficaram por três anos. ‘Meu pai retornou para Boraceia e eu fui para Bauru fazer cursinho e prestar vestibular para a faculdade de Direito”.
 Fez a faculdade na Instituição Toledo de Ensino. Só que nunca exerceu a profissão, pois nesse ínterim tinha que trabalhar e estudar.” Fui trabalhar na Coca- Cola como vendedor em 1979.Fiquei somente seis meses, pois o diretor viu algum potencial em  e me colocou no treinamento da Coca-Cola Internacional. Quando voltei assumi a chefia de Promoções e Eventos. Posteriormente pela gerência de vendas da Coca- Cola em Bauru. Fui promovido a  gerente comercial da fábrica da Coca-Cola em Marilia, quando da sua inauguração, onde me especializei a vender os produtos que não se vendia como Sprite, Tai e Kaiser. Nesse momento me destaquei por vender Kaiser e a mesma que era uma empresa coligada à Coca-Cola me convidou para assumir a Kaiser Nordeste. Fiquei em Salvador por dois anos”.
Araraquara

Valdir conta que nessa mesma época estava inaugurando a  fábrica de Araraquara e o presidente o convidou para que pudesse ficar mais perto da família. Ele argumentou que se fosse pela família não aceitaria, pois a mesma poderia visita-lo no Nordeste, mas se a empresa precisasse dele, viria, Assim veio para Araraquara.”Já faz 23 anos”.
Com mais uma promoção Valdir chegou a comandar a Kaiser do estado de São Paulo, Mato-Grosso , Triangulo Mineiro e Paraná. “Fiquei até 2001. Depois disso montei  uma empresa consultoria, onde trabalhei com diversas empresas, onde a que mais se destacou foi a do grupo Montoro onde fiquei cinco anos, onde acabei me apaixonando por comunicação. Paralelamente, investia em hotéis desde 98, ou seja, o que eu ganhava eu investia em hotéis. Em 20012 parei com a consultora e me dediquei somente aos hotéis, como investidor de redes como a Accor, no estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná”.

Ferroviária S/A
O pai de Valdir era palmeirense e torcia também pela Ferroviária. “ Fui o primeiro presidente da Ferroviária S/A.Ninguém queria(risos).por conta da imensa divida. Eu gostava de futebol, mas nem tanto. Era só para gerir, sem remuneração. Não ia aceitar, mas a lembrança do meu pai bateu fundo e acabou aceitando”. Sob sua administração, a Locomotiva voltou aos trilhos.

Caminho de Santiago
Valdir queria fazer um retiro espiritual. Optou pelo Caminho de Santiago. Foi sozinho, a partir da França. “Lá você caminha e é você com você. E é tanta paz que você acaba refletindo sobre muitas coisas, como o fato de que a vida pode ser simples e gostosa. Você fica pensando em momento o homem achou que para ser feliz é preciso ter muita coisa, muita matéria  para carregar?No caminho aprendemos a ser solidários. E o melhor é que depois de percorrido, o caminho não sai mais da gente. O caminho mudou a minha vida. Antes não observava os detalhes das coisas, das pessoas, se Deus existia, não que não acreditasse. Ficava procurado milagres. Nessa caminhada me lembrei de quando nasceu a minha primeira filha, da hora que foi amamentada, da beleza do momento em mesmo dormindo ela sugou o leite materno para se alimentar de leite e de amor. Quer coisa mais milagrosa do que isso?Me arrepia. Foi ai que me encontrei com Deus nessa recordação  onde também”, diz acrescentando que hoje sua percepção é maior, onde a energia alheia é percebida. “Nada acontece à toa na nossa vida.“Aprendi que é preciso ser para ter e não o contrário”.

Jorge Okada, o menino da sopa

Publicada em 20 de março de 2017

Jorge Okada, o menino da sopa

Ele guarda como relíquia a revista do O Imparcial do 135º aniversário de Araraquara. Em uma das páginas, o destaque é ele, ainda menino
Célia Pires
Na segunda-feira, um senhor oriental muito simpático veio até a redação d’O Imparcial. Ele que é professor de origami e matemático. Trazia consigo um tímido sorriso, uma expansiva simpatia e uma revista antiga que carregava com todo cuidado.
Convidado a se sentar, contou que se chamava Jorge Okada, nome que, segundo ele, tinha vários homônimos, inclusive em Araraquara.
Já a revista, um exemplar do O Imparcial de aniversário dos 135 anos de Araraquara, de 1952, trazia uma reportagem sobre o Parque Infantil ‘Leonor Mendes de Barros’ com texto de João Ferraz e fotos de Lúcio Silva e Darc Gaudiosi. Uma das fotos trazia um menino oriental de uns três anos, comendo gulosamente um prato de sopa. O menino era ele, Jorge Okada, hoje com 71 anos.
“Como eu era muito comilão me pegaram no flagra na hora da foto, eu era tão guloso que quando acabava de tomar a sopa pedia mais e falava, caso não me dessem: daqui não saio!”.
Como Araraquara fará 200 anos em agosto próximo, Okada ressalta que achou interessante contar o que foi feito daquele menino mais de meio século depois.
A revista que era de seu pai foi transferida para Jorge quando ele já estava casado, com filhos. “Guardo como uma relíquia, principalmente por causa do parquinho. Tenho muitas histórias de lá. Para se ter uma ideia, no parquinho eu cantava para ganhar umas balas”.
Okada também se recorda que certa vez o Papai Noel do ‘Parquinho Noel’ era ninguém menos que o prefeito da cidade, Pereira Barreto.
São tantas lembranças que Okada traz como a que na creche do Parque Infantil naquela época era atendido pelo médico Dr. Logatti.
Questionado sobre onde mora, conta que atualmente reside em São Carlos, mas que já morou em São Pedro quando se aposentou, com o objetivo de proporcionar uma melhor qualidade de vida aos filhos.
Jorge Okada nasceu no dia 11 de junho de 1949, em Araraquara, no bairro de Santa Angelina. Filho de Issamu, natural de Osaka, Japão, e de Kiyo. “Meu pai veio com meus avós, minha mãe, Kiyo, natural de Ito, veio com um irmão dela, portanto não poderia vir, mas deram um jeitinho fazendo um casamento fictício para a imigração, Nem sei quem é, mas é uma pessoa que veio como marido dela.
Os pais de Okada se conheceram no Brasil, provavelmente em Olímpia. A vida destes imigrantes não foi fácil. Eles trabalhavam em um sistema que pode ser considerado de semiescravidão. Para se ter uma ideia tinham que comprar na venda da própria fazenda e era uma conta sem fim, pois sempre estavam devendo. “Meu pai era muito honesto e ficou, mas outros, que acabaram ficando bem financeiramente, fugiam sem pagar a dívida. Só que ele era uma pessoa honesta e de muita confiança e como tinha facilidade para fazer contas era quem controlava o peso das colheitas, como a de algodão e café, por exemplo.
Jorge se lembra que passaram pela fazenda Martinho Prado. Depois a família foi para Pradópolis. Como os irmãos de Jorge viviam doentes, o padrinho de uma das irmãs dele sugeriu que fossem para Araraquara, pois a cidade era boa, um local onde as pessoas tinham saúde. Assim vieram para cá. Foram morar próximo ao IEBA onde vendiam doce e posteriormente somente pipoca.
Quando tinha uns dois anos, a mãe o colocou no parquinho. "Minha irmã mais velha me levava nos ombros dela", diz acrescentando que no parquinho tinha um médico que se chamava Dr. Francisco Logatti que ao longo dos anos se tornou um amigo até o fim de sua vida. “Ele me tratava com um carinho muito especial. Quando fui estudar agrimensura, ele era o diretor da Escola Técnica de Agrimensura”.
Okada conheceu o filho de Dr.Logatti, Chiquinho, que também estava se preparando para prestar vestibular, pois iria ter o primeiro ano da Civil. Só que para Okada não deu certo, mas Dr. Francisco Logatti arrumou para que ele fosse trabalhar na Camargo Correa, em Ilha Solteira, cidade que ajudaria a construir. “Quase todas as ruas fui eu quem loquei”, diz o matemático.
Orgulho
Okada sente um imenso orgulho de ter a sua vida misturada a de Francisco Logatti. Toda vez que vinha para Araraquara ia visitar o propulsor dos seus sonhos.
Depois foi trabalhar em Planura, na barragem e construção da cidade. Nesse lugar conheceu Mauricio, a pessoa que o levaria para São Paulo, onde poderia realizar seu sonho de fazer faculdade.
Em Araraquara chegou a trabalhar na Talavasso. Em São Paulo, onde se aposentou em 99, trabalhou no Metro da cidade. “Comecei na Hidroservice, trabalhou em Belém, Brasília, Mogi das Cruzes, entre ouros lugares como Engevix com os franceses na parte de ferrovia.
Essa questão de fazer faculdade foi muito penoso para Okada, pois na época, a família seguia uma tradição de respeito à hierarquia de que se o filho mais velho não fez faculdade nem seria o caçula que iria fazer. E esse era um dos motivos que Okada queria sair de casa, pois queria estudar, e quando Logatti veio com uma nova possibilidade, agarrou a mesma com unhas e dentes.
Para ele, fazer faculdade foi um desafio vencido. Ele que fez Mackenzie em São Paulo, a despeito da tradição oriental que poderia frustrar seus sonhos, carrega dos pais lições que considera valiosas: a mãe ensinou a não excluir ninguém, a não discriminar. Já o pai, a ser honesto e dizia: os outros podem ser desonestos com você, mas você não. “É essa honestidade que também deixo como legado para meus filhos”.
Araraquara
O saudoso Nobolu foi presidente da Nipo, do Clube dos 50 e candidato a vereador. Recebeu várias homenagens de clubes como 22 de Agosto e até virou nome de rua, através de um projeto de lei de Mário Okama que estudou no IEBA(Instituto de Educação Bento de Abreu) com Jorge; o saudoso Teru, Tieko e a saudosa Ury.
“Eu devo tudo a Araraquara. Começando pela minha família que só melhorou de vida depois que se mudou para Araraquara, Eu me formei aqui no ensino técnico no Logatti. Depois fui para São Paulo fazer faculdade e lá me aposentei”.
Autor de vários projetos, fez matemática por causa de Okada. Ele conta que a fabriqueta de pipoca japonesa da família era feita artesanalmente. O negócio durou até o final da década de 60.
Família
Jorge Okada é casado com Maria Tamaki Okada, desde 1979. O casal que hoje ensina a fazer origamis teve três filhos: Dagoberto Yukio, Guilherme Takayoshi e Theofilo Satoshi. “Eu coloquei esses nomes para que não ocorrem homônimos como o meu, pois tive muita dor de cabeça, pois um homônimo devia em todos os cartórios”.
Lembranças

“Uma vez uma professora deixou minha irmã de castigo. Quando eu vi peguei uma varinha e comecei a correr atrás da professora. Eu tinha uns três anos”. Eu me lembro de que estudava na escola João Manoel do Amaral que trouxe os alunos para conhecer no jornal O Imparcial o primeiro linotipo. Eu tinha sete anos. A criançada veio toda num caminhão FNM ver a novidade. Fui fazer matemática por causa de Oswaldo São Jorge que escrevia livros sobre a matéria”.

sábado, 29 de janeiro de 2011


Gê Negrão – Geraldo Hilário da Silva Filho


O famoso apelido surgiu principalmente por conta de ser moreno e por gostar de música, em especial o samba



Nascido em Araraquara no dia 5 de janeiro de 1954, esse grande cara, literalmente, passou a primeira parte de sua infância no São José. “Me lembro que brinquei muito no parque infantil ‘Carmelita Garcez’ e outra parte passei no bairro do Carmo, onde morei até os 17 anos”. Gê, que é engenheiro civil, trabalha numa empresa, mas nunca abandonou a sua grande paixão que é a música. “Essa paixão começou no grupo escolar ‘Florestano Libutti’, onde o diretor era o Aristides Bussadori. “Eu tinha 8 anos de idade e já cantava. Também me recordo que no grupo tinha um orfeão e eu sempre fui ligado à arte. Se não me engano, uma sexta-feira de cada mês, as classes, naquela época, cantavam o Hino Nacional no galpão do grupo e cada classe tinha um ou dois alunos que recitavam, faziam poesia.
Eu sempre estava no time daqueles que declamavam. No próprio grupo tinha o Orfeão regido pela Maria Gaspar. Assim, duas vezes por semana quando terminavam minhas aulas pela manhã eu ficava junto com um outro amigo, o Gilson. Os ensaios aconteciam no anfiteatro da escola para ensaiar o canto orfeônico. Eu gostava daquilo.” Gê se recorda que sempre assistia ao programa Clube dos Artistas, especialmente o Almoço com as Estrelas, com Airton e Lolita Rodrigues. “Eu via as orquestras tocando e observava os bateristas. Eu via, mas não tinha essa informação. Assim, arrumei algumas latas, umas maiores e outras menores e montei uma bateria no fundo de casa. As vezes fico pensando que idéia foi essa de montar uma bateria e tocar com o cabo de vassoura? Tocava do meu jeito, mas o ritmo já estava ‘ juntando’ com a parte de canto.” Nessa questão de ritmo, Gê Negrão conta (rindo) que o músico Didinho Haddad sempre o convidou para tocar com ele, para estudar. “Ele é baterista e considera que eu tenho um ótimo ritmo. Eu nunca fui. Didinho até hoje me diz que está me esperando para eu ir a casa dele cada vez que nos encontramos.”

Os Bersanetti

Assim o tempo foi passando. Gê terminou o grupo e começou o ginásio e lá tinha um grupo de amigos, de uma família tradicional do Carmo, os Bersanetti. Dinho, Salame, Carlinhos Bersanetti, Lelei, Mirandinha, Caduco, Tuca, Zinho, Desastre e outros. “Eles tinham um grupo de samba que sempre se reunia no carnaval e eu era muito amigo da família e nisso ficava vendo o pessoal tocar. De vez em quando alguém dizia para pegar um instrumento como um tamborim. Assim comecei a tocar com eles.
Quando dava os intervalos da orquestra do Clube 22 de Agosto a gente entrava e começava a cantar aqueles sambas antigos e aquilo foi ‘virando’.” Nessa mesma época o ginásio Victor Lacorte não tinha fanfarra. “Assim, todos os alunos, juntamente com o diretor da época, Paulo Cochar, arrecadaram dinheiro, adquiriram instrumentos e montaram a primeira fanfarra da escola. Mas eu já estava me formando e quase saindo de lá, pois não tinha colegial.” Quando foi para o EEBA em 70, a primeira providência de Gê Negrão foi fazer parte da fanfarra da escola. “Em 71 eu já era instrutor da fanfarra e lá fizemos uma revolução colocando as meninas para tocar na fanfarra. Surpreenderam, pois tocavam muito bem, algumas superavam os meninos em talento”.

Festivais e serenatas

Dali do EEBA Gê começou a participar de festivais de música em Araraquara acompanhando alguns grupos, mas sempre na percussão. “Nessa época eu já havia começado a estudar violão. Quando terminou o colegial, fui para a faculdade (Logatti) de engenharia civil. Nessa mesma época conheci o Zé da Conceição e cantei muitas vezes com ele.” Gê conta que também montaram as escolas de samba, as baterias do Clube Araraquarense que fizeram, segundo ele, sucesso pra ‘xuxu’ nos anos 70. “A Escola de samba ‘Apesar de você’, onde o Tadeu Correa da Silva, Cardoso, Padeirinho, Salomão, Carlão, Marinho Belarde, Teroca, Claudião, Aru, Tuca, Paulinho Pasetto, Toninho Bitinga, Vartela, Amarelinho, Lau, Abi, Borghi (in memoriam), meu irmão João Renato (in memoriam), Ivan, Sergio Português, Carlinhos Java (in memoriam), Chiquinho Baterista (In memoriam), entre outros, tocavam também.” Gê conta que foram tocando e fazendo serenata. “Sempre gostei de fazer serenata com um grupo de amigos. Desde a época do ginásio. Escolhíamos uma menina e lá íamos nós. Muitas vezes bastava dizer que morava uma menina em certa casa que fazíamos serenata, às vezes nem sabíamos quem era. Às vezes aparecia, pai, mãe que convidava a gente pra entrar e a gente não sabia o nome de ninguém. A gente cantava pra eles também que gostavam”.

Pedaços de Choro

Essa paixão por cantar fez com que Gê também integrasse grupos musicais. “Desde 96 faço parte do grupo ‘Pedaços de Choro’, que tinha em sua composição Flávio Módulo, Tinho, Carlinhos Bersanetti, Marcos Lima, Itamar e Peru (in memoriam). De 1989 até 2007 fiz parte do Coral Araraquarense regido pelo maestro Moacyr Carlos Júnior e depois passei a integrar o coral Cantus Nobile, regido por Susy Mendes, além disso toco flauta transversal e sax”, conta dizendo que está sempre estudando. Negrão revela que adora música erudita e popular e que estuda flauta com o amigo e professor Claudinho Pesse, além de tocarem juntos.
Quando era garoto, o pai de Gê Negrão sempre quis que tocasse um instrumento. Foi quando começou com o violão. “Meu pai queria que eu tocasse sax e que meu irmão tocasse violão. Assim, eu e meu irmão fomos levando o violão e o sax ficou pra trás. Depois de muito tempo fui vendo, tocando, por estudar flauta, outros instrumentos, jazz, música brasileira fui me apaixonando pelo sax tanto quanto sou pela flauta.” Gê Negrão reflete ao ser indagado sobre fatos marcantes que ocorreram com ele durante sua trajetória musical. São tantas coisas que ele declina de falar, ele que também tocou muito na noite, orgulha-se de ter tido contato com grandes músicos. Recentemente uma das filhas de Gê, Marina, se casou. Ele entrou na igreja e ficou esperando pela filha ao invés de fazer a tradicional entrada do pai levando a noiva até o altar. “Todo mundo ficou na dúvida se perguntando como é que eu tinha entrado e a minha filha não? Mas eu peguei o microfone e fui ao encontro dela cantando ‘Marina’, conta ele emocionado. Assim é Gê Negrão, não somente um homem grande, mas um grande homem.

Grandes caminhos

Para Gê Negrão a música e o esporte são o grande caminho que leva à disciplina e ao respeito. “Quando você estuda música tem que cantar um pouco mais baixo, principalmente quando canta em coral e toca em grupo, pois não posso dar um acorde adiantado do outro. Tenho que esperar, respeitar o tempo para chegar naquele outro acorde, respeitar o volume que estou cantando para aparecer aquela outra voz. Isso já é disciplina, ou seja, meu direito vai até a hora que para lá e começa aqui, começa aqui para lá.
Todos juntos, um não pode destacar do outro, onde tenho que me preparar bem se não vou estragar o dos outros. Então, tanto na música quanto no esporte, pois são paralelas, não adianta a equipe treinar e eu não. Na hora em que for jogar vou atrapalhar o jogo.” Gê Negrão é filho de Geraldo e Maria, irmão do saudoso João Renato.
É casado com Pia há 30 anos é pai de Marina e de Carolina. Para ele ainda falta muita coisa para realizar. “A gente sempre tem vontade de fazer alguma coisa a mais”, diz ele acrescentando que seu envolvimento com a música e com o esporte o ensinaram muito e agradece a todas as pessoas que possibilitaram isso a ele, da disciplina às orientações, principalmente na maneira de se viver, valorizando todas as coisas da vida.

Vôlei

Por conta da alta estatura, Gê Negrão quando entrou para o EEBA passou a jogar na seleção juvenil e jogar na seleção de Araraquara. “Joguei vôlei de 1970 a 1977, sendo que em 73,74, joguei pela cidade de Bauru.” Indagado sobre o porquê não ter seguido com o vôlei, Gê conta que não havia esse incentivo como agora. “Era muito mais difícil. Teve gente que até chegou a ser convocado para uma peneira que teve para a seleção paulista.
Tinha um time bom em Araraquara, onde jogava o Yanke, o Turco, Gil, Tato, Lopasso, Paulo Schwartman, Tatalo, Brandão, Adalberto, Tomás, Lopassinho, Carlinhos Haddad, Nelsinho Solci (in memoriam), Marco Antonio Haddad, o Miudinho (in memoriam), entre outros. Joguei com todo esse pessoal”, diz saudoso não se esquecendo de citar que o técnico era o professor Urias, no EEBA, o professor Volmes.
Um fato marcante Uma vez jogando vôlei por Bauru contra o Santo André, em São Bernardo, mais de 85% dos jogadores eram da seleção brasileira, inclusive um dos jogadores era o famoso Moreno. Certa hora do jogo Gê Negrão se viu frente a frente com ele, que era seu ídolo. Sobrou uma bola para ele, Moreno. Ele ‘subiu’ deu a maior pancada do mundo. A bola espirrou longe. Ponto deles. Aplausos e mais aplausos. Quando ele passou pertinho da rede disse baixinho para Negrão sem que ninguém percebesse: “desculpa cara”. Para Negrão isso foi demais, pois ele teve que fazer aquela cortada. Regras do jogo. Mas a verdade é que se o golpe pega na orelha ‘matava’.

(Publicado em 14 de março de 2010)


Marcelo Barbieri, o arquiteto de si mesmo!

O menino tímido do interior surpreendeu os colegas do colégio da capital, o Rio Branco. Era mesmo ele? Sim. Era ele, que com sua marca principal, a determinação, ganhou projeção nacional e realizou seu maior desejo: ser o prefeito da cidade em que nasceu.

Marcelo Fortes Barbieri, atual prefeito de Araraquara, nasceu no dia 21 de novembro de 1.956, na Maternidade Gota de Leite. Na época seus pais Nelson Barbieri e Maria Ruth Fortes Barbieri moravam na Avenida Feijó com a Carlos Gomes, na esquina. Ali, Marcelo, que tem como irmãos Maria Cecília (arquiteta), Nelson (engenheiro), Renato (cineasta) e Estela (educadora e artista plástica), passou toda a infância e adolescência. Ele enaltece o período de sua adolescência. “Isso marcou a minha vida, pois estudei no ‘Antonio Joaquim de Carvalho’, ‘Pedro José Neto’ e no ‘EEBA’, onde colegas e professores como Altamira Montese, Lurdes Palota, Dona Ruth, Ulisses, Dona Cidinha e a Dona Miriam, que me ensinou a ler jornal. “Comecei a ler jornal n’O Imparcial, que sempre fez parte da minha vida, tanto que o seu diretor, o saudoso Paulo Silva, foi uma pessoa que me influenciou muito.Mesmo depois de meu pai ter morrido, pois eram muito amigos, ia me visitar sempre na loja. Foi um professor também”.
Aos 17 anos foi para São Paulo fazer os últimos anos do colegial no Colégio Rio Branco, onde estudava Ayrton Senna e a irmã Viviane que era da sua turma. Ali foi goleiro do time de handbol e futebol de salão. Era o ano de 1975. Posteriormente, em 1975, ingressou na Faculdade Getúlio Vargas (FGV), onde se formou em Administração de Empresas. Marcelo também cursou Economia e Geografia na USP, mas não chegou a se graduar. Barbieri conta que antes de ir para São Paulo não havia pensado em se envolver com a política. Aqui em Araraquara era apenas mais um estudante normal, um adolescente que praticava muito esporte, especialmente a natação, além de gostar muito de estudar e, principalmente, de ler muito. Seu envolvimento com a política praticamente começou quando estudava na FGV. Ali foi eleito representante de classe. “Nessa época mataram o Vladimir Herzog e eu estava na escola no dia em que eles o mataram. Estava vendo um show do Grupo Tarancon e no meio da apresentação foi anunciado o assassinato dele no DOI-CODI. Isso detonou a primeira greve que participei, que a nossa classe propôs à faculdade parar em protesto. Levei a proposta para a assembléia em nome de minha classe e a mesma aprovou em protesto pelo assassinato do jornalista”. A partir desse fato, o até então tímido rapaz do interior foi se envolvendo. De representante de classe passou a diretor do centro acadêmico, depois presidente do centro acadêmico da FGV. Posteriormente, diretor da União Estadual dos Estudantes e mais tarde,vice-presidente da União Nacional dos Estudantes,UNE, na reconstrução e depois no segundo mandato, diretor de relações internacionais da UNE.

MDB

Em 1975 se filiou e começou a atuar no MDB, pois era contra a ditadura. “Quando foi fundado o PT, Partido dos Trabalhadores, participei da reunião de fundação, pois era vice-presidente da UNE e fui convidado. Foi num restaurante em São Bernardo. Mas resolvi não entrar para o partido e ficar no PMDB, pois achava que o mesmo tinha mais condições de fazer a transição do período ditatorial para a democracia. Foi uma opção política minha de ficar no PMDB, portanto eu nunca sai do partido. Tanto que quando virou PMDB por uma força maior da ditadura, na época, que quis acabar com o partido, eu continuei no PMDB. Fui vice-presidente nacional do partido, cheguei a ser presidente nacional durante um período, depois fui tesoureiro do partido em São Paulo”.

Barbieri explica que primeiro foi presidente do partido em Araraquara, em 1.986, na época em que Clodoaldo Medina era prefeito e ele o convidou para assumir a presidência do partido. Na época, Marcelo atuava como empresário, pois o pai dele tinha falecido e havia voltado para Araraquara para ajudar e assumir a empresa da família. “Depois do período da época estudantil, em 1.982, fui candidato a deputado estadual com Montoro, morava em São Paulo e já tinha um filho. Perdi a eleição e o Montoro me convidou para trabalhar na secretaria da Educação do Estado, onde fiquei de 83 a 84. Em 84 meu pai estava com câncer muito mal, e me chamou para voltar para Araraquara”. Barbieri ressalta que voltar para Araraquara não foi algo doloroso, pois estava bem. “Se fosse em 82 quando perdi a eleição. Nessa época meu pai já havia me chamado para voltar. Não voltei, pois estava mal. Havia perdido a eleição e tinha dívida. Senti que não seria bom voltar, mas em 84 a situação era outra. Eu já tinha regularizada a minha situação e, portanto, não me senti numa condição de fraqueza para vir para Araraquara e meu pai estava muito mal, tinha assumido a empresa dos irmãos que haviam separado o patrimônio que tinham em comum, e tinha a loja, a Constrular Barbieri, além da construtora dele. Assim eu fiquei na loja e meu irmão que é engenheiro, o Nelson, havia ficado na construtora. Isso foi em 84.”
Desse Barbieri ficou trabalhando em Araraquara e não foi mais candidato em 86. Depois as empresas que a família tinha em comum se separaram, pois cada um queria tomar um rumo. Com isso a empresa foi desativada e Marcelo ficou com a loja. Mas em 1990 resolveu sair candidato a deputado federal pela região. “Na época ninguém acreditava que eu fosse me eleger, nem a minha mãe. Mas eu acreditava, até parecia meio lunático, e acabei tendo 46 mil votos, sendo 26 mil de Araraquara”. Vale lembrar que havia 20 anos que Araraquara não elegia um deputado. “Assim trabalhava em Brasília e em São Paulo. Como tinha a minha empresa, pedi para o Paulinho Rodrigues administrá-la. Depois a Zi, minha esposa, ficou um tempo na loja e quando fui reeleito em 94, como eu tocava a loja, na época, que era familiar, desativamos a mesma. Ai fiquei 94, fiquei 98 e em 2002 sai a federal e fiquei suplente. Em 2003 o Lula me chamou para trabalhar na Casa Civil como assessor especial dele no Palácio do Planalto, onde fiquei de março a dezembro de 2003”.

Araraquara

Depois de ter trabalhado na Casa Civil, Barbieri voltou para Araraquara e se candidatou a prefeito em 2004. Em 2005 assumiu a Câmara Federal, onde ficou até 2006. “Não fui candidato a deputado federal, apoiei o Dimas e o Massafera, que se elegeram e sai candidato a prefeito em 2008 e fui eleito. Eleito na quarta tentativa, Barbieri conta que o desejo de ser prefeito surgiu depois de acompanhar muito os trabalhos dos ex-prefeitos Valdemar De Santi , Clodoaldo Medina e Rubens Cruz . “Lembro que o De Santi era do MDB e meu voto para prefeito foi dele, pois na época era do meu partido. Depois votei no Medina, que também era do meu partido. Depois o Massafera era prefeito e eu era deputado federal . Acompanhei muito os trabalhos dos prefeitos e comecei a ver que o prefeito realiza e o deputado pede, discute as leis, mas não as executa. E eu, por ter sido empresário, ter acompanhado meu avô e meu pai, que foram empresários, aprendi a ter atração pela parte executiva de empreender, de fazer.
Então essa ‘obsessão’ por ser prefeito era um desejo de realizar. O prefeito tem mecanismos de realização que o deputado e o Legislativo não têm. Gostei de ser deputado, aprendi muita coisa com pessoas relevantes como Ulisses Guimarães, sobre o mundo, o que me deu muita bagagem e para exercer essa experiência no Executivo. Tinha vontade de ser executivo. Fiquei 14 anos no Legislativo e um ano no Palácio do Governo Federal, que me deu mais ânimo de viver o executivo”. Barbieri é indagado sobre o fato de ter se chegado mais à população, de fazer o chamado ‘corpo a corpo’ fez alguma diferença nas urnas. Ele responde que sim, pois o deputado federal fica muito em Brasília, o que acaba o distanciando, pois não há essa presença cotidiana. “Quando não fui candidato a deputado, em 2006, comecei a trabalhar numa outra empresa minha, pequena, mas com outra característica. Assim convivi mais no dia-a-dia da cidade e me envolvi com alguns projetos, como o da termoelétrica. Fiquei morando aqui direto e como deputado ficava muito em Brasília e em São Paulo, ou seja, ausente da cidade. Fui lançado pelo partido em 2007. Tive um ano para trabalhar e foi completamente diferente do que tinha sido antes”. Barbieri diz que um prefeito, diferentemente de um deputado, fica muito próximo da população por conta do trabalho desenvolvido por cada um deles.
O prefeito, por exemplo, vê desde o problema que uma pessoa está tendo com uma febre até o buraco de uma árvore, mas que é importante para aquela pessoa. “ Você tem que cuidar disso, desse dia- a- dia, do buraco, do cupim, mas também das coisas grandes como o da universidade de música”. Para Barbieri, o fato de se aproximar mais da população teve um saldo positivo tanto que acredita que isso o ajudou a ser prefeito, tanto que continua atendendo a população num dos dias da semana especialmente marcado para esse fim. Marcelo diz que essa espécie de agenda tem lhe trazido muito, pois as pessoas falam a verdade, trazem o problema ‘cru’, sem maquiagem. “ Isso me ajuda muito a administrar, pois um caso, às vezes, representa vários casos e está prejudicando a administração e não estava sabendo. “Também não consigo saber tudo, mas ouvindo a população eu vejo muita coisa. 80% dos casos são resolvidos, pois há as barreiras legais e materiais, mas a maioria consigo resolver e isso me deixa satisfeito. Sei que temos que resolver os problemas gerais, mas às vezes é necessário resolver o problema da pessoa humana, pois para ela faz diferença. Muitas vezes ela não consegue resolver com ninguém e vem comigo e eu consigo. Pois a gente tem a força política para resolver. Não estou sendo bonzinho, estou vendo utilidade em fazer isso, me trazem questões que me ajudam a entender o que tem de errado na gestão”.

Quércia

Um fato marcou o Brasil: a abertura das contas do político Orestes Quércia. “Quiseram aprovar a abertura das contas e eu fui contra. Não abri as contas dele. Pedi vistas e ao pedir vistas eu criei uma situação política tensa. Depois abriram, mas não tinha nada. Tanto que a CPI que foi da VASP foi 100% arquivada pelo Ministério Público Federal, que não encontrou nenhuma irregularidade, que é o que eu defendia, pois acompanhei o processo de privatização da VASP. Foi uma boa para o governo estadual e era, se não me engano, um prejuízo de 600 milhões. O Quércia vendeu para o Canhedo, se livrou daquela bucha e depois, infelizmente, a VASP veio a falir, mas faliu como empresa privada, não como Estado. Não tem nenhuma ação contra o Estado por ter se tornado uma empresa privada e o Ministério Público Federal mandou arquivar, pois não tinha nada errado”. Por conta disso Marcelo ficou muito conhecido e não foi uma coisa fácil. “Foi um desgaste emocionalmente falando, mas eu estava convicto de que estava certo e estava com minha consciência limpa de que estava fazendo uma coisa que era justa.
Naquela época, o Quércia, hoje não mais, foi muito criticado e atacado. Não é agradável sofrer um ataque violento da imprensa e eu fiquei junto com ele. Para mim, na verdade, foi um teste de personalidade para que ver se eu tinha caráter ou não, porque você ser amigo da pessoa quando ela está no poder é uma coisa, agora como ele estava fora , marginal ao poder ninguém queria chegar perto. Fui um dos poucos que ficou. Sou companheiro dele desde 1979, quando fui vice-presidente da UNE e ele me ajudou a fazer o Congresso que levou 10 mil estudantes do Brasil inteiro a Salvador. Foi algo muito emocionante. Precisava ter coragem de ajudar um evento como aquele e ele teve”. Na época da abertura das contas de Quércia, o pedido de vistas de Marcelo foi motivo de vários ataques como os editoriais contra ele, principalmente de um dos maiores jornais do Brasil, o Estadão. Uma vez publicaram que ele tinha envolvimento com o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Utilizaram para isso um homônimo. A pessoa envolvida no caso era o Marcelo Chalu Barbieri e eu Marcelo Fortes Barbieri. Ele era sobrinho de um bicheiro chamado Zinho. “O Estadão colocou na manchete, tenho guardado isso num quadro: ‘Deputado quercista envolvido no jogo do bicho’. A Lilian Wite Fibe, que apresentava o jornal, também me atacou. Fui ao Rio e falei com o procurador Biscaia, provei que não era eu e ele me deu uma carta comprovando, pois não era eu. Tudo isso foi fruto desse processo que quiseram me envolver num projeto mentiroso, numa coisa caluniosa e que comprovei que era mentira. São coisas que aconteceram e que hoje fazem parte da história. Não tenho nenhuma mágoa por conta disso, pois acabou sendo importante, pois você adquire mais consistência quando passa por momentos de dificuldades”.

Fama de briguento

A fama de bravo, Marcelo coloca na conta da descendência calabresa e vai explicando um pouco da história da razão de sangue de calabrês ser quente. “A Calábria foi invadida pelo império otomano e os árabes quando invadiram a Itália, o comandante Nabucodonosor, das tropas otomanas, mandou queimar os navios e disse : ‘daqui ninguém volta’. Então imagina a tensão que os caras viviam. Se repararem podem notar nas feições da minha família, nós temos uma certa proximidade com árabes, pois realmente aquela região, sul da Itália, sofreu um forte influência árabe naquele período. O povo calabrês é um povo meio briguento, mas hoje estou bem mais calmo”.
Ele conta que quando enfrentou a ditadura, sendo preso por três vezes, numa delas no porão do DOPS, onde ficou por dois dias e duas noites. Sem motivo algum. Algo triste e deprimente, segundo ele. “Aquilo eu tive que enfrentar e se não tivesse força tinha sucumbido ou não teria me metido. Ou eu entrava ou não entrava. Não havia meio termo. Enfrentei Erasmo Dias, que mais tarde acabou virando meu amigo, o Tuma, que era chefe do DOPS, me prendeu, acabou virando meu colega de parlamento. Tudo bem, superei isso. Não tenho mágoa de ninguém. O que não gosto é de coisa errada, de má índole, má fé e, principalmente, não gosto de mentira. Aprendi que você não deve ficar do lado da mentira. O político que faz isso se arrebenta. Tem que ficar do lado da verdade, mesmo que as pessoas não gostem dessa verdade.Hoje tenho muita paciência, adquirida com o tempo, de ouvir e de ponderar”.
Mas uma coisa que Marcelo não admite é a quebra de hierarquia em qualquer setor. Tanto que se algum secretário estiver errado, ou revê a sua posição, mas que ele não pode desautorizá-lo para alguém abaixo dele. “Se assim for é melhor mandá- lo embora. Isso é um processo de amadurecimento. Não nasci assim. A chance de errar é menor se você amadurece. Então, hoje a minha capacidade de explodir é muito pequena. Às vezes acontece quando me deparo com uma mentira e a calúnia, pois ela me indigna. Isso eu enfrento. Não deixo barato, pois tenho que preservar a minha honra. Perco a paciência, me irrito com a mentira”. Quanto à invasão que promoveu no jornal O Imparcial e acabou virando ‘lenda’, Barbieri conta que saiaram no referido matutino, em1996, uma pesquisa feita por seu amigo Viana, que o colocava em terceiro lugar. “Estava errado e fui conversar com ele. Não invadi. Bati na porta e disse que queria falar com o Viana, que fugiu. Mas o respeito muito. Quanto ao fato, pedi desculpas a Dona Cecília, na época diretora do jornal. Nessa eleição cometi muito erros. Já fiz auto critica de vários deles. Briguei com o De Santi e não tinha que brigar. Depois fiquei amigo dele e recebi seu apoio. Depois ganhei dele. Depois de três eleições, a quarta foi a que menos errei. A gente vai aprendendo e reconhecendo os erros”.

Marcelo por Marcelo

O Marcelo é uma pessoa que aprendeu muito com a vida. “Eu voltei para ficar com meu pai quando ele estava morrendo e eu procurei um caminho meu. Fui ser político porque eu queria ser político. Meu não era político e era contra a política, assim como minha mãe. Meu tio Dinho foi deputado quando eu nasci, em 56, e teve todo um trauma familiar por conta disso. Minha família com isso tinha certa aversão à política. Mas eu decidi que ia seguir o meu caminho. Sempre tive determinação. Quando entro numa coisa, não entro mais ou menos. Entro pra valer. Se eu vou ser prefeito vou ser prefeito pra valer, então vou cumprir todas as funções: da comida aos projetos”. Ele dá um exemplo dessa determinação. “Quando tinha 13 anos o cigarro surgiu como algo maravilhoso e fantástico, mas eu fazia natação, o treinador era o Ricardo Simões, que disse quem fumar, pára de nadar. Eu gostava de nadar chegando a 10 mil metros por dia. Era fundista. Ficava nadando e isso me possibilitava ficar meditando. Era um prazer, uma satisfação muito grande. Então, eu nunca fumei. Fui motivo de chacota na época, meu amigos, infelizmente, alguns deles não estão mais entre nós, começaram no cigarro, foram para o álcool e depois para as drogas. Óbvio que hoje o problema das drogas é muito pior, mas já existia. Nesse caso não aceitei a droga, com isso muitos dos amigos se afastaram de mim. Não é porque o outro pensa diferente de mim que vou atrás do que ele pensa para agradar, por isso que às vezes me indisponho, pois se acredito em algo não vou abrir mão, a não ser que argumentos me provem o contrário. Pode vir o mundo contra. Aprendi ao longo dos meus 53 anos a buscar um caminho que eu tenha convicção para chegar a algum lugar. Sou assim em tudo, na vida política, empresarial e pessoal. Quando acredito numa coisa vou atrás”.

Família

Marcelo é casado com Maria Helena Rolfsen Moda Francisco Barbieri, chamada carinhosamente de Zi, há 16 anos. Barbieri tem 4 filhos: Nelson, 27, Izadora, 17, Matheus, 11 e Caio, 5. Marcelo plagia o amigo Quércia e diz que em primeiro lugar você tem que ter o compromisso de estar vivo, em segundo lugar o compromisso com sua família e depois o compromisso com seu país. “A família é uma extensão da sua vida, se não tiver compromisso com sua família é difícil você ter compromisso com a sociedade. Isso é uma coisa de italiano também, pois a minha família sempre foi muito ligada. Lembro que meu tios, meu pai e a gente vinha comer o macarrão da vó Romilda todos os domingos”.
Marcelo diz que a família é muito importante, mas que fez um casamento muito jovem. Tinha 21 anos quando casou com mãe de seu filho Nelson, do Rio de Janeiro. Também foi pai muito novo. “Não deu certo. Tive que vir morar em Araraquara. Pois casamos no Rio e morávamos em São Paulo. Quando meu pai me chamou, ela não quis vir. Gostava dela. Casei por amor. Foi muito dolorido, mas tive que me separar. Ai teve uma fase da vida que fiquei solteiro e acabei tendo uma filha, que é a Izadora, mas não casei com mãe dela. Ai achei que deveria casar de novo e casei com a Zi, mas não foi fácil casar com a Zi. Tive que brigar para casar com ela, que na época estava namorando, ela brigou com o namorado, ai eu casei com ela. Presentei a Zi com muitas flores antes de casarmos, mas ai ela dava as flores para o Neto, que é filho de Maria, e ele levava para a igreja. Acabou que a Nossa Senhora ajudou e casamos”. Marcelo diz que pretende fazer um grande governo em Araraquara, que marque a história da cidade e assim como seu slogan que traga desenvolvimento para todos. “Espero chegar em 2012 com a minha missão cumprida, ou seja, cumpri aquilo que prometi, principalmente na questão ambiental e de acessibilidade”.

(Publicado em 30 de maio de 2010)

Edna Nogueira: o violino é a minha vida!

A violinista que se profissionalizou aos 18 anos diz que nunca vai se aposentar, pois a música na velhice é terapia

A violonista Edna Nogueira ministra aulas de violino e teoria musical desde 1939 e coordena a Orquestra Filarmônica Experimental da Uniara e o Conjunto Instrumental Feminino. No dia 2 de junho ela vai completar 90 anos. Conhecendo-a de perto a nossa admiração cresce a cada instante. Sem perceber vai fazendo com que a gente se sinta em casa. “Olha vai tomar café ali na cozinha. Olha vem olhar esse bordado que fiz. Nos fala de seus filhos, de seus netos, dos alunos como o dr. Abelardo e Leidi, que tiveram aulas de violino com ela. Ela também conta que plantou inúmeras árvores frutíferas e plantas em frente à sua casa. Fala de sua geléia especial de pinga e aos poucos vai nos contando sua vida, de seus projetos, de sua música. Ela nos mostra tudo. É uma mulher cheia de sentimentos fortes.
Diz que embora trabalhe com música nunca teve ganas de aparecer com ela. Vai nos falando timidamente das homenagens recebidas em forma de poesia ou de crônicas, como a do escritor araraquarense Ignácio de Loyola que um dia escreveu que Edna Nogueira era uma daquelas pessoas diante da qual temos vontade de nos ajoelharmos para que passe com sua simplicidade, talento e musicalidade. Que gente como ela ilumina uma cidade. Ele pergunta onde ela encontra tempo para fazer tudo o que faz e ainda por cima faz doces. Sim ele de fato sabe o que diz: é uma mulher de projetos, de sonhos e de alunos. Mas ela, apesar de conservar sua grande alegria de viver, guarda uma grande tristeza: a perda do marido João. “Ele era minha vida, meu amor, meu tudo”, diz acrescentando que foi único: namorado e marido.
Edna nasceu em Santa Rita do Passo Quatro, mas a família mudou-se para Araraquara quando ainda era menina. Quando era criança tinha vontade de ser pianista, mas naquela época os pais não podiam pagar. Então pegou o violino do irmão Teodoro Nogueira para estudar. Tanto que se formou professora de violino no Conservatório Musical de Araraquara em 1939. A partir daí ministrou aulas de violino. Vale lembrar que o irmão de Edna, Ascendino Teodoro Nogueira, falecido em 2001, além de violonista foi um grande compositor. Teodoro também é pioneiro no estudo técnico-musical da viola caipira. A violonista conta com entusiasmo que em 1998 implantou o projeto ‘Cantigas de Roda’, idealizado pelo irmão a quem chama de inteligente, Teodoro. “Eram quatro rodas infantis, com três músicas tiradas do folclore brasileiro. No projeto realizado junto com a Orquestra Infanto-Juvenil, foi criado um Coral Infantil que estreou em Araraquara. Depois nos apresentamos no Sesc em oito cidades. “Foi algo maravilhoso”, diz emocionada. “O que ainda espero? Continuar tocando até a hora da minha morte.”

Breve currículo

Edna, a valsa Ser mãe Música com sabor: violonista Edna Nogueira também é uma doceira de mão cheia Fotos: Leandro Pardine Edna formou a equipe de Canto Lírico antes de 1960. “As aulas aconteciam na minha casa e eram ministradas pelo maestro Ferry. Fizemos apresentações em vários recitais de ópera em várias cidades”. Em 1980, incansável, fundou a Orquestra de Câmara de Araraquara, com violinos, violas, violoncelos, contrabaixo e piano. “Em 1997, a Orquestra de Câmara passou a fazer parte da Uniara.”
Edna conta que o Reitor da Uniara, Luiz Felipe Cabral Mauro, foi um de seus alunos de violino. “Não seguiu por falta de vocação, mas sempre me abriu as portas para que a música entrasse. Primeiro foi no Ginásio São Bento. Depois na FEFIARA e por fim na UNIARA”. Em 2000 a violonista formou a Banda Uniara, com 45 jovens. No ano seguinte, criou a Orquestra Filarmônica Experimental da Uniara. Já em 2002 formou o Conjunto Instrumental Feminino Uniara, composto somente por mulheres. “Interpretamos músicas populares e internacionais.” No ano de 1995, em parceria com a Fundart (Fundação de Arte Cultura do Município de Araraquara), Edna apresentou juntamente com o coral ‘Prof. Lysanias de Oliveira Campos’ o Concerto Sinfônico da ópera, de autoria do compositor araraquarense maestro José Tescari, intitulada ‘O sacrifício de Abraão’.

Família

Edna Nogueira de Moraes Silveira é filha de José Teodoro e Vitalina. De seu casamento com o saudoso João nasceram: Luiz Carlos, José Eduardo e Cecília. Tem sete netos e duas bisnetas. Dois netos seguiram o caminho da música, a advogada Mariana e o psicólogo Ricardo, ambos violonistas.
Ela conta com orgulho de seus prêmios, como o diploma ‘Parceiros da Cultura’, por sua atuação no desenvolvimento de ações culturais e essenciais ao Estado de São Paulo. Também recebeu das mãos do ex-secretário municipal de Cultura, o diploma no dia da Confraternização Latino Americana em 2004. Recebeu da Câmara Municipal de Araraquara em 2003, o título de Cidadã Benemérita pela difusão da arte na comunidade.

Ser mãe

Para Edna Nogueira, mãe é como uma orquestra, se o regente não for bom, a família perece. É como uma orquestra bem afinada. A mãe tem que ser dona de casa, educar muito bem os filhos e colocálos numa profissão. Como eu sempre digo: se der um instrumento na mão de uma criança, esta não se desvia, por exemplo, para a droga. “Graças a Deus que as escolas estão com música no currículo”, diz aliviada elogiando também o Projeto Guri, que dá acesso musical aos mais carentes. Edna ainda continua bordando e crochetando para ajudar entidades assistenciais. São cachepôs, porta niquéis, marcadores de livros. Tudo de crochê. Para ela, o violino é a sua vida. “A vida inteira só toquei violino”.

Edna, a valsa

Edna Nogueira se diz emocionada com a valsa intitulada “Edna’ feita pelo compositor e grande poeta João Stromayer, a quem ela ensinou violino. Embora Edna tenha relutado, a valsa foi instrumentada para grande orquestra. Vai ser a música de homenagem aos seus 90 anos. “A música ficou belíssima”, diz feliz. Edna te conheci no concerto musical que a platéia a aplaudia uma valsa de Strauss. Amei ao me aproximar de ti. Foi grande a minha emoção De aprender tocar violino que é a minha paixão Com amor e carinho escrevi essa canção Saiu esta valsa bonita do fundo do coração Mas vai ficar saudade Aos alunos que você tão bem ensinou Deixando essas lembranças Do tempo que já passou Edna, a professora querida Muitos alunos passaram por ela.


(Publicado em 8 de maio de 2010)

Foto~João Ferraz


Beto Caloni: Meu dom natural é a palavra

"Nunca tive maiores ambições. Entro em qualquer lugar.
Quem não gosta de mim deve ter problema na vida”


Dar uma entrevista, eu? Perguntou surpreso José Roberto Caloni, ou melhor, Beto Caloni, quando a reportagem ligou pedindo para que participasse da coluna “ Você faz a História. É que, talvez, esse jornalista nascido em 4 de janeiro de 1951, na Vila Xavier, desconheça a importância de alguém que por algum motivo ou feito se torne parte da vida das pessoas. E Caloni conseguiu esse feito quando compôs Flanando no Boulevard, música que fala de Araraquara e seus costumes em 36 versos abordados com muito bom humor. Gravada pelo próprio Caloni, a música ganhou ainda mais força quando o jornalista José Carlos Madalena começou a tocá-la em seu programa. Foi feito um clipe. Alguém jogou no You Tube que já contabiliza milhares de acessos. Tudo conspirou para que a música acontecesse: mais de 22 sites de distribuição, pirataria, além da chamada propaganda viral, com gente de fora deixando comentários emocionados, no You Tube, com saudades da terrinha natal, agradecendo a oportunidade de ‘rever’ na composição ou sambinha de letra inteligente com arranjos de Carrapicho e Fabiano. Cantou, pois os outros cantores ficaram temerosos com a reação do povo. Esse sucesso todo que praticamente virou um fenômeno de mídia, há mais ou menos um ano e meio, foi uma grata surpresa para Caloni, pois a primeira música que gravou. Nunca havia cantado em público. “Acho que ninguém havia brincado com Araraquara. Ninguém pagou um mico do jeito que paguei. Foi uma comoção. Pessoas me procuraram e me param na rua até hoje. Mas o que me deixou mais emocionado com isso tudo foi que as pessoas me agradeciam, como se eu tivesse feito a música para cada uma das pessoas de Araraquara que encontrei”. Para ele o ‘muito obrigado’ teve um sabor diferente. “Isso que foi fantástico”.

A primeira pauta a gente nunca esquece

Caloni conta que a música é algo recente em sua vida. Aprendeu a tocar violão sozinho, na adolescência, no início dos anos 70 com aqueles livrinhos com músicas cifradas. Mas a musicalidade presente em sua vida é herança de família, pois seu saudoso pai cantava muito. “Acredito que se alguém tem talento para a música é fundamental que os pais cantem perto da criança. Tenho uma formação musical intuitiva. Aprendi tocar violão sozinho e piano recentemente. Comecei a compor agora, depois dos 40 anos de idade, mas meu dom natural é a palavra. É escrever. Desde novinho, vi que eu tinha muita facilidade para escrever”. E foi essa facilidade para escrever que o levou ao jornalismo. Guarda a data em que começou no jornalismo: dia 10 de setembro de 1978, no Diário, na época do Roberto Barbieri (seis meses antes do mesmo falecer). A primeira pauta entrevistar o Cônego Cavalini, que estava assumindo como provedor na Santa Casa. Na segunda pauta, a constatação do que estava escrito nas estrelas: ser jornalista. “No dia seguinte, a pauta era para procurar uma senhora perto do Quitandinha cujo marido, que era motorista de caminhão, havia desaparecido.Voltei ao jornal com as informações e não encontrei o Ivan Roberto. Sentei na máquina de escrever para ir adiantando a matéria, deixar meio pronto. No dia seguinte, o texto estava impresso. Ai não precisou mais nada…” A faculdade (FIAM, São Paulo) ele resolveu fazer depois de achar que o jornalismo praticado na cidade era anárquico e meio amador. “ Eu achava que o jornalismo poderia ser bem feito, pois sempre achei essa profissão bonita demais. “A faculdade me deu respaldo, pois acho que curso superior vale à pena para qualquer coisas. Acredito que a pessoa tinha que fazer um curso superior para viver e não para trabalhar. Sou a favor do diploma, se não de jornalismo, que seja um outro, se não, não, pois se você é formado não pode alegar ignorância, principalmente a questão da deontologia, pois tem gente que não tem noção nem do que é ética”. Química geral Caloni trabalhou em todas as áreas possíveis da comunicação, da TV à publicidade. E o fato de ter trabalhado em muitas áreas faz com que muitas vezes veja o jornalismo como química geral misturando arte e jornalismo.
O jornalista também é um apaixonado pela história da cidade. “Fiz uma opção. Achava que se eu quisesse continuar uma pesquisa como intelectual tinha que optar por alguma coisa. Notava que todo mundo pegava uns temas muito esquisitos como ‘cinema alemão nos anos 20’. Não. Eu tinha que estudar a minha terra. Meu chão. Então desde 86 que comecei a pesquisar. Fiquei muito amigo do professor Rodolpho Telarolli (falecido) e optei por isso. Mas é um hobby. Talvez eu tenha sido o primeiro a falar sobre o livro Macunaíma, como foi escrito; sobre o sitio arqueológico. Curioso é que depois começaram a escrever e eu não fui citado nem como fonte”. Indagado sobre algo que o tenha marcado, o jornalista conta que prestava serviços a uma escola de surdos mudos. “Doaram à entidade instrumentos musicais. Mas eram crianças surdas mudas. Descobrimos que era possível que tocassem”. Assim foi montada uma fanfarra com 40 crianças surdas- mudas que chegou a viajar por várias cidades. “Ninguém sabia que eles eram surdos mudos. Tocavam, mas só o ritmo. Isso foi uma coisa importante demais que eu fiz. Mas também só hein!”

Apoio para o vídeo

Além da mãe, Caloni tem mais três irmãs. Assim seu contato com o universo foi intenso, como encontrar bobes de cabelo dentro do violão. Mas o casamento não foi para ele que casou, mas descasou. Hoje, está terminando o seu livro, romance que se passa em Araraquara no início dos anos 30 e que deve se chamar “Norte Sensato”. Fala da quebra da cafeicultura. O jornalista também ministra cursos de roteiro de cinema e TV, além de participar de produções culturais, sempre com o intuito de que tenham alguma finalidade. Também está trabalhando num vídeo e livro sobre o professor Telarolli. “Estou precisando de apoio para terminar o vídeo. Temos a idéia de fazer uma grande festa em agosto com músicos, reunindo muita gente. A festa deve se chamar Conclave de Sol”. Também está nos planos escrever o programa Ponto G, na Net, além de um trabalho ligado à terceira cidade, entre outros projetos. Cara briguento Conhecido como briguento, Caloni, diz que isto é um lance de coerência, pois fica indignado diante de certas coisas, mas gostaria também de ser conhecido pelo outro lado, pois quando reconhece alguma coisa de verdade é bastante generoso, valoriza e se empenha. “O que não gosto de ver é maracutaia, coisa mal feita e não que eu seja briguento, é que eu tenho mania de falar o que é verdade. Então, se tiver que falar eu falo mesmo, mas procuro não pisar na bola. Tenho um senso ético bastante apurado. Não me meto na vida dos outros e quando tenho que brigar falo o que falo mesmo, mas por outro lado quando tenho que defender, quando vejo uma injustiça, quando tenho que ajudar alguém procuro fazer isso de uma forma bem generosa”. Ele afirma que é uma pessoa que gostaria de ser reconhecida pelo seu trabalho. Só por isso. “Não precisa gostar de mim, desde que gostem do que eu faço. Tenho muita dificuldade em lidar com as pessoas, com o ser humano. Isso na medicina deve ter um nome bonito e na psicologia deve ter um nome alemão incrível para esse tipo de comportamento. Tenho mania de perfeição. Adoro desafios e acredito que tenho uma capacidade intelectual um pouco acima, pois dou conta de fazer tudo o que quero. Não tenho modéstia. Não tenho vocação para celebridade: quem compõe e escreve roteiro geralmente não aparece, escritor dá para contar nos dedos os conhecidos. Nunca tive maiores ambições. Entro em qualquer lugar. Quem não gosta de mim deve problema na vida, pois não procuro prejudicar ninguém. Imagino que sou coerente. Podem me acusar de tudo. Até dizer que sou arrogante, mas injusto e ingrato não sou não”. Araraquara para ele se divide em duas parte: cidade e população. “O meu caso é com a cidade”.
Ao término da entrevista, Beto Caloni fica meio que preocupado com as fotos e recomenda ao fotógrafo João Ferraz que capriche na utilização do photoshop, desconhecendo, talvez, que a beleza está em ser exatamente como ele : uma pessoa de verdade.








(Publicado em 30 de matço de 2009)