sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


Careca, um atleta que caminha na simplicidade

Um homem que caminha pela simplicidade. Que carrega com orgulho o mesmo nome de seu pai: Antônio. Que de tão fascinado por um personagem acabou sendo apelidado pelo nome do mesmo.

Um homem que parece ser admirado por todos deixando cair por terra a ‘tese’ de que toda unanimidade é burra. Parece que todo mundo tem uma história para contar a seu respeito: Wilson Luiz que ainda guarda a sua primeira carteirinha de atleta dente de leite; Pedrinho Renzi que estudou no mesmo colégio que ele, o Victor Lacorte, Marcelo Barbieri que se lembra da época de menino no Clube Araraquarense em que, Saudatina Góes de Oliveira, mais conhecida como dona Ziza,sua mãe não aceitava carteirinha com exame vencido; Simões que foi o primeiro a filmar as suas façanhas;José A C Silva que testemunhou, quando jovenzinho, de perto sua agilidade com a bola, fosse no vôlei, basquete,tênis e é claro no futebol.
Esse homem que caminha na simplicidade é Antônio de Oliveira Filho, o Careca, nascido no dia 5 de outubro de 1960, em Araraquara. Precisamente na Rua 12 entre a Feijó e a Espanha, no bairro do Carmo.
Ali o então menino, jogava bola, lógico, mas também ia pescar, andar de bicicleta e de carrinho de rolemã. Uma infância normal de moleque, no mínimo, bagunceiro.
Careca conta que nos intervalos das aulas do Antonio J. de Carvalho, onde estudava ele e os colegas faziam rachas de futebol de meia. “Quantas vezes a diretora não me puxou na orelha e dava, às vezes, suspensão,pois eu chegava suado demais”.
Mais tarde, tentando ser profissional o hábil e rápido menino passou a frequ?entar o Colorado onde o treinador era o Zé Lemão. “Ali tinha uma frequ?ência de jogos nos finais de semana, onde a gente jogava pela cidade toda, e em cidadezinhas perto de Araraquara. Isso também foi evoluindo, pois passei a jogar com mais responsabilidade, participando de campeonatos o que faz com que você vá adquirindo mais confiança, além da possibilidade de você crescer”.
Posteriormente Careca foi para o Benfica, no mesmo esquema, ou seja, os jogos aconteciam aos finais de semana, mas as dificuldades eram maiores. Os jogadores eram mais fortes, mas crescidos e com mais qualidade.Isso o ajudou bastante a crescer até chegar em 1976 e ser avaliado no Guarani. Tinha 15 anos quando foi fazer esse teste, a chamada peneira. “Depois de quase um mês fui aprovado. Então eu sai, não tive a oportunidade, embora tenha surgido o convite de treinar na Ferroviária, mas preferi arriscar no Guarani pelo convite que o falecido Creca,que foi meu amigo também, me fez na frente da Ferroviária. Fui tentar e deu certo.Eu não tinha completado 16 anos ainda”.
A mãe de Careca temia que ao seguir o futebol,ele poderia acabar como o marido Oliveira, que não ganhou nada de dinheiro e continuou trabalhando como servente e pedreiro. Para ela futebol era uma coisa muita ingrata e que tinha que estudar. Mas à escola ele ia quase amarrado. Certa vez lendo o jornal Dona Ziza viu uma oferta de emprego de vendedor. “Lá fui eu bater na porta da loja. Graças a Deus fui mal recebido, não me deixaram nem fazer a entrevista e me dispensaram. Minha alegria foi grande porque, pois me deu campo maior ainda para ir tentar fazer esse teste no Guarani”.

Apelido

O apelido surgiu aos 6 ou 7 anos,pois gostava muito dos programas do Palhaço Carequinha, que eram transmitidos pela Rádio Record. “Antigamente era na radiovitrola. Parece que foi ontem”, brinca ele, acrescentando que ficava curtindo os programas que tinha pela manhã. “A minha tia e a mãe começaram a me chamar de Carequinha, o ‘Carequeinha’ até que virou Careca e todo mundo me chama por Careca e não pelo nome”.
O futebol veio da influência do pai, Oliveira, que também jogou futebol. Careca Começou muito cedo. Com seis ou sete anos já estava se virando nas peladas de rua e de clubes, mas além de qualquer influência existe o dom inato e com o passar dos anos ele se aprimorou e melhorou seu rendimento. “Meu pai me levava para assistir aos jogos da Ferroviária quando vinha jogar o Santos, o Corinthians, São Paulo, enfim os grandes clubes que vinham aqui, a gente tinha uma reservinha de dinheiro e ia assistir”.
Hoje a mãe sente grande orgulho desse filho pródigo, pois que Sempre volta para cá.Careca tem primos e amigos na cidade e costuma frequ?entar os clubes como Araraquarense e Náutico, ir a um restaurante ou outro. “Curto um pessoal, às vezes a gente encosta com os amigos para tomar uma cerveja. Acho que é sempre bom matar a saudade e contar algumas histórias”.

Muito conhecido na cidade

No início era visto como o filho da Dona Ziza, pois sua mãe prestava serviço no Clube Araraquarense e carregava o menino para dentro do Clube, para que pudesse crescer ali dentro. “Comecei aos poucos a me envolver pegando bolinha de tênis, e jogava tênis e futebol, então o bacana, o bom é isso ai”.
Aos poucos o atleta foi crescendo até ter uma oportunidade de jogar, de fazer uma avaliação no Guarani e ali no ‘Bugre’ começou a sua carreira. Rapidamente foi campeão brasileiro. “E é interessante você voltar depois para a cidade e falar: puxa ficar conhecido, oportunidade de Seleção Brasileira. Começar a ser mais badalado, então isso para mim é alegria, uma satisfação grande que a gente busca, lógico em primeiro fazer o melhor possível, para amanhã ou depois ser reconhecido, acho que são os prazeres que cada um tem na sua profissão”.
Ele ressalta que não passou por deslumbramento comum aos que ganham fama rapidamente. Ele credita isso a estrutura e ao alicerce muito forte construído pelos pais e seu irmão Paulo, cinco anos mais velho. Sempre foi pé no chão. Na simplicidade. “Tive uma linha focada, pois meu objetivo era ser profissional”. Conseguiu.
De todos os jogos para ele o gol que ficou marcado em sua vida foi o que deu título ao Guarani pelo Campeonato Brasileiro. “Fiz um gol e ganhamos de 1 a 0 do Palmeiras, dando um título inédito ao Guarani. Não foi um gol espetacular, mas foi importante”.

Napoli

Napoli, cidade do sul da Itália, é um lugar que Careca tem no coração, pois o recebeu super bem. Tanto que a sua despedida como atleta foi feita lá com 53 mil pagantes numa terça-feira de bastante frio. “ Sou bastante grato”.
Ali teve a felicidade de vencer um desafio que possuía uma torcida fanática e carente de títulos. Fez um período de praticamente seis anos de muita alegria juntamente com Maradona com quem jogou durante 4 anos.
No Japão, onde jogou pelo Kashiwa Reysol, novo time japonês da J. League a experiência foi muito positiva. “É um povo muito correto onde não é necessário nem assinar. A palavra tem valor”.
Careca é casado com Maria de Fátima. “A família ‘ flutuou’ junto com ele pelos lugares por onde passou.” Graças a Deus sempre tive uma estrutura, os meninos foram alfabetizados em italiano e em japonês. Hoje a Aline é nutricionista, a Elen, veterinária e o Thiago é professor de tênis assim como meu irmão”.

Voluntarismo

Careca tem um olhar profundo sobre as questões sociais e esteve sempre envolvido com o voluntarismo.
Hoje mais do que nunca ele é envolvido principalmente com as questões do câncer, pois há 12 anos sua mãe, Dona Ziza teve um problema, mas se recuperou. “Quando acontece isso próximo da gente passamos a acreditar cada vez mais em projetos como o Boldrini em Campinas e também o hospital de Barretos”.
O atleta, que parou de jogar em 1997, se reinventou e aceitou novos desafios. Atualmente, cuida das escolinhas de futebol que montou em Campinas, do Campinas Futebol Clube que fundou com o jogador Edmar e é comentarista esportivo na Rede TV.
Mesmo não tendo a antiga vida de profissional, Careca procura se cuidar ao máximo e o resultado pode ser visto em sua boa forma física.
No Careca, que mora em Campinas, ainda existe hoje cerca de 90% daquele menino que o pai levava em sua bicicleta para assistir aos jogos na cidade.” Ainda sou um moleque”, diz rindo. “Às vezes, o pessoal lá em casa diz que parece que não cresci. Adoro viver esse meu dia a dia com palhaçada, brincando, sempre com alegria. Quando começa o estresse pego a minha bicicletinha e vou dar uma pedalada vou esquecer o problema; vou pescar. Como se fosse um garoto, enfim nessa alegria e simplicidade que eu cresci, com essa educação dos meus pais e acima de tudo alegre, sempre caminhando para o lado positivo que atrai só coisas boas”, diz seu lado de palhaço ‘Carequinha’.
O atleta se diz um homem com raízes e bastante conservador e que sempre procura preservar e conservar os amigos, a família.
Ele finaliza dizendo que nunca pensou em seguir uma profissão, salvo que poderia ter sido um tenista se não jogasse futebol ou quem sabe um paisagista, mas maior mesmo sempre foi o esporte da sua paixão.
Depois de tantas conquistas esse homem que galgou todos os passos do esporte que escolheu para sua vida, ou seja, de dente de leite à Seleção Brasileira é um homem que respeita e cumprimenta habitualmente a todos, do jardineiro ao presidente da empresa, de estender a mão e olhando sempre no olho, tratando todos com igualdade. Caminhando por onde passa com sua marca característica, a simplicidade. Não é por acaso que é unanimidade….

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