sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

FOTO- JOÃO FERRAZ

Corra que o Malaspina vem aí!


A autoridade deste homem é conhecida há longo tempo. A um gesto de suas mãos ou a apenas um olhar de advertência, os alunos na Escola Estadual Bento de Abreu, EEBA, saem em debandada. Entram até em sala errada, mas dispersam. E onde antes imperava algum burburinho, a ordem se instala. Mas se engana quem pensa que o ato é baseado em autoritarismo. Para o dono deste olhar de um límpido azul representa uma vitória conquistada ao longo de sua trajetória no magistério. Tanto que no dia 30 de setembro comemora 20 anos na direção do EEBA. O que o incentiva a continuar é que ali se pode produzir e melhorar cada vez mais a vida dos alunos, reverter quadros mal esboçados, educar, orientar, colocando certas situações nos eixos. “O EEBA para mim é a minha casa. Só falta a cama. É uma doença”, brinca ele, ao mesmo tempo preocupado com o futuro da escola, pois daqui a dois anos sai a sua aposentadoria (por idade). “Não penso na hora em que terei que parar, pois quando isso acontecer acho que vou morrer. A tristeza vai ser muito grande, preciso me preparar muito, mas muito mesmo”, diz ele fazendo uma pausa marcada pela emoção. “O choque vai ser… quando fala em aposentadoria até me arrepia. Tenho medo. Mas ao mesmo tempo acho que têm que entrar aqui no EEBA pessoas novas, com visões novas e que acompanhem essas mudanças. Mas a vontade de querer continuar é muito grande”. Empatia Muita, mas muita gente que passou pelo EEBA tem uma história para contar do Malaspina. Como aquela em que um aluno escreveu seu nome com um pincel atômico em todas as carteiras da escola, no pátio, nos corredores. Fez seu nome por assim dizer. Malaspina entrou na sala do tal aluno e perguntou quem era fulano de tal. Quando o mesmo respondeu, ele disse simplesmente que era para ele limpar tudo senão seria expulsão na segunda- feira. O rapaz passou o final de semana limpando seu nome. Não ficou nenhum vestígio. A história ficou. Hoje muitos professores chegam a ser desrespeitados pelos alunos, mas Malaspina explica que o aluno de hoje é um pouco estressante por que não tem muito limite nas suas conversas, nas suas atitudes. “Falar alto, sentar e jogar copo no chão. Tudo é normal. Quando o professor tem a percepção disso, a convivência fica mais fácil”. Mas ele revela que o que faz seu sucesso com os alunos é falar a mesma linguagem. “Você tem que ter envolvimento. Viver ao lado do aluno, pois a distância da idade, se você quiser você separa. Se você quiser passa a ser o pai, a mãe, o ídolo desse aluno, porque essa aproximação é importante, criar um vínculo”, diz. Ele acrescenta que tudo o que diz cumpre. “Não ameaço. Exijo na dose certa. E eles respeitam”. Quem o conhece percebe como é nítido que os alunos o têm como uma segurança. Malaspina os recebe na porta. Recolhe as carteirinhas de cada um, que são devolvidas na saída. Ao todo são 2.400 alunos na escola. Casado com a professora Lídia, com quem tem dois filhos, também professores: Ana Carolina, bióloga e professora da Uniesp e Igor, agrônomo e professor da ULBRA, em Rondônia. Para Malaspina, ver os filhos trilhando o mesmo caminho dele foi algo natural, pois todos os seus irmãos, além da mulher, são professores. Malaspina conta que traz do professor a mesma alegria em incentivar os alunos. “Digo que devem procurar se especializar, pois para ser igual aos outros você cai na mesmice. Hoje é a especialização. Mestrado. Doutorado. Procurar alguma coisa a mais, enfim ter uma conduta que te leve a ser melhor do que os outros. A busca por esta conquista está dentro de você”.

Como o EEBA entrou na minha vida
Depois de formado, Malaspina foi dar aula em São Paulo, no Colégio de Itaim Paulista. Lá ficou de 73 a 76. Em 77 veio para o EEBA. O trâmite para chegar até o EEBA foi o seguinte: sempre que passava pela Washington Luiz para ir a São Paulo havia um pedágio. Pensava: porque tenho que ir tão longe? Se tem uma cidade tão grande como Araraquara?” Em 1966 ou 67, talvez, ele conta que veio assistir um jogo do Santos. “O Pelé veio jogar na Fonte Luminosa. Tinha vindo com um amigo e essa pessoa, não sei porque motivo, teve que passar no EEBA e eu vi a escola. Fiquei encantado. Foi aquela história: coloquei na cabeça que um dia iria trabalhar no EEBA.” Quando veio participar da atribuição de aulas em 77, não deu outra. Pegou aulas na referida escola. Depois disso só ficou fora do EEBA de 80 a 84, quando morou em Americana. Mas depois retornou entrando para a direção da escola em 1989. Para Malaspina, o maior pecado é ser saudosista, pois cada época tem seu encanto. Ele ainda traz muito do menino que ia para a escola com os pés descalços, a exemplo da disciplina. Hoje não é mais a mesma pessoa de quando começou, pois enxerga melhor as coisas. Aprendeu a conviver com várias gerações. “Eu tenho amigos de 70, 80, mas tenho meus amiguinhos de quinta série. Sento com eles. Estão com o foninho de ouvido, pego, quero saber o que estão escutando, então sei que aquela geração gosta daquilo, e automaticamente tenho que gostar daquilo, mas tem aquela geração que gostou do Rolling Stones. Adoro músicas novas. Desconheço o que seja conflito de gerações. Esse contato que eu vivo, que me apaixona pelas pessoas, pela escola, pelo que eu faço, é tudo.” São tantas histórias nesses vinte anos de EEBA que daria para escrever um livro. Ele credita muito do seu sucesso, em especial aos professores Luiz Carlos Penteado, Dra. Inayá, Professor Gorla, Professor Marcelo e aos demais professores e funcionários. Com os professores o comportamento é de professor. “Não sou autoritário, não imponho nada para ninguém . Eu peço.”

De novo Pelé

Malaspina conta que além de seu pai Antonio, deve tudo ao professor e diretor da escola de Tabatinga, Dirceu Sgarbi. “Ele foi ao meu pai e disse a ele que nós não podíamos parar de estudar, pois tínhamos capacidade para seguir em frente. Ele era uma pessoa que cuidava das famílias, por que era um homem respeitado. Professor e diretor, era uma pessoa muita culta. “Tenho ele como um herói. Quando conclui o magistério ele foi novamente até o meu pai e disse que nós iríamos fazer faculdade. Naquela sala de magistério que eu sai em 1969 havia 22 alunos apenas. Era a seleção da cidade, sendo 4 de Nova Europa”. “O contato com esses colegas continua, tanto que em dezembro comemoramos 40 anos de turma. “Não deixo essas coisas se perderem. Entre os colegas há o Benedito Farto, diretor da escola de Nova Europa, Osmar, meu irmão, que é pesquisador-cientista e professor da Unesp de Rio Claro. Outros tantos espalhados por várias cidades, graças a esse diretor que nos encaminhou. Isso tudo com sacrifício”, conta ele sem se lamentar. Através do professor e diretor Sgarbi foram prestar vestibular em Bauru, e depois os ajudou a alugarem uma república. “Como um verdadeiro pai, o diretor foi até Bauru. Alugou a casa. Deixou tudo certo para a gente. Fiz ciências biológicas porque o professor Dirceu achava, na época dele, que a ciência iria ser o “boom” do mundo. Ele nos dizia que se fizéssemos ciências iríamos ter emprego. Todos fizemos biologia.” Malaspina disse que é difícil encontrar alguém como o professor Sgarbi, além de seu pai. Uma pessoa que te acolhe e encaminha. “Ele ia de casa em casa como um médico de família. O filho dele é um famoso cirurgião plástico”.

Menino de pés descalços

Osvaldo Carlos Malaspina, 58, nasceu em Tabatinga – SP. Morava numa colônia. A família descendente de italianos, a mãe Graziela Giansanti e o pai Antonio Malaspina. “A gente morava na roça e saia aquele bando de molecadinha. Um ia passando na casa do outro. Vínhamos de pé descalços, bornalzinho de pano, pois não tinha saquinho plástico para colocar os cadernos. Quando chovia o caderno ficava ‘inchado’ e a gente tomava bronca da professora.” Ele se lembra que os cadernos que eram levados para casa eram os de tarefa. “Quando a gente fazia tarefa à noite, ficava com o nariz preto por causa da lamparina. Nunca esqueço disso. Para tomar banho, de bacia, era preciso esquentar água na chaleira no fogão de lenha e bebíamos água de poço. Isso em 1959.” Em 1960 o pai Antônio não se desfez do sítio e compra uma casa na cidade. Os quatro meninos precisavam estudar. O pai não queria que os filhos se tornassem caipiras a vida inteira e os levou para estudar. “Só o mais velho dos irmãos, Odilo, apesar de morar na cidade, toma conta da roça até hoje.” Malaspina se recorda que Tabatinga ainda era cheia de estradas de terra, onde frequentemente carros, como os do padeiro, atolavam. Uma de suas mais queridas lembranças remete a um rádio comprado pelo tio José para ouvir os jogos da Copa do Mundo de 58. “A casa era de madeira. O chão de terra batida. E ele comprou um rádio que era do tamanho de um frigobar. Cortou um toco de eucalipto e pós o rádio em cima. A pilha para se ter uma idéia era do tamanho de uma bateria de caminhão. A sintonia do rádio era uma rodela imensa com barbante. Mas o aparelho não pegava bem. Pegava o início do jogo. Sumia. Depois pegava a metade do jogo e depois o fim. Jogava Brasil e Tchecoslováquia. Brasil e Hungria. Eu escutava falar dos times estrangeiros, mas sem saber o que era aquilo.” Mas o mais interessante da história era que ele, que sempre havia morado numa colônia italiana, nunca havia visto um negro. “A gente naquela época não vinha para a cidade. Falava no rádio de um tal de Pelé, fenômeno da época. Marcava muitos, muitos gols. A gente ouvia. Para nós o Pelé era branco como nós. Em 1959 entrei na escola e apareceu o Pelé na figurinha de bater bafo. Nunca tinha visto. Tivemos que trocar um saco de mexerica com a figurinha, pois meu pai não nos dava dinheiro, para mostrar para minha mãe, hoje com 90 anos, quem era e como era o nosso ídolo Pelé”. Tabatinga criou o magistério. O científico mais perto era o EEBA. “Sessenta e dois quilômetros de terra. Impossível de se frequentar. O magistério era a nossa chance. Aproveitamos”.


(Publicado nodia 30 de agosto de 2009)

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