sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


Paschoal da Rocha: o símbolo máximo da história da Ferroviária

Ele já foi chamado de o guardador de fotos de toda a história do esporte da cidade. Parte de sua casa foi sacrificada em nome dessa paixão.
A roupa que veste é praticamente a mesma todos os dias: camiseta grená. Da Ferroviária. Fanatismo? Obsessão? Não. É só um grande amor que Paschoal Gonçalves da Rocha, nascido em Araraquara, no dia 27 de fevereiro de 1942, no bairro de São Geraldo, onde passou toda a infância. Filho da costureira Catarina Moscari da Rocha e do ferroviário da Companhia Paulista Estrada de Ferro, Manoel Gonçalves da Rocha, Paschoal que tinha mais seis irmãos (um deles já falecido) lembra que a família adorava pegar o trem e ir para São Paulo. “A gente saia seis horas da manhã e chegava lá pelas onze horas. O trem tinha água, banheiro, café”. Ele também se recorda que o bairro era muito animado, dos jogos de futebol e dos rapazes que chegavam a apanhar quando vinham da Vila Xavier tentar namorar as moçoilas do São Geraldo e vice-versa. “Era muito divertido. Na época tinha muito homem e poucas mulheres”. E como não poderia deixar de ser ele ressalta que muita gente do bairro se destacou no futebol, como o goleiro Abelha, Pio, Espingardinha, entre outros.
Quanto aos estudos, ele conta que começou no da Rua 4, no Pedro José Netto, depois passou para o Antonio Joaquim de Carvalho, na Rua 7, mas que não foi longe estudando – somente até o quarto ano do grupo. “Um diploma me fez muita falta”. Assim foi trabalhando de engraxate, de jornaleiro, tendo inclusive sendo entregador do jornal O Imparcial. Tinha 10 anos. “Vendia O Imparcial Esportivo no centro da cidade. Saia aos domingos, às dez horas da noite e enquanto não saia o pessoal que ficava no centro não ia embora pra casa. Os jornaleiros desciam em turma. Todo mundo vendia”. Depois de muitos anos, Paschoal também colaborou com o jornal O Imparcial, na coluna Reminiscências Esportivas, criada pelo jornalista Sidney Schiavon. Mas Paschoal também varreu muito cinema para entrar de graça. “Quando fiz 18 anos entrei para CTA para ser cobrador. Os ônibus ainda eram elétricos. Fiz muito as linhas São José-São Geraldo e Vila Xavier-Carmo. Lembro que o pessoal não sabia andar de ônibus direito e perguntava se o coletivo ia para Rincão”. De cobrador da CTA, onde ficou dois anos, foi para o Departamento de Estrada de Rodagem, o DER, onde está até hoje. Ainda não está aposentado. Trabalha como escriturário das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30. Tem 48 anos de serviço. Acredita que se sair acaba perdendo muitas coisas.

Família

Paschoal se casou em 1967 com a ex-funcionária da Telesp Rosmari Ortega da Rocha. Se conheceram, ou melhor conversaram primeiro por telefone. Ele telefonista do DER, ela, da Telesp. Dessa união nasceram Arthur, Rogério, Valéria e César. Lá se vão quase 43 anos de casados que vão comemorar no dia 23 de julho.
Paschoal conta que o fato de estar sempre na Ferroviária não atrapalhou sua vida em família e até já avisou que quando morrer que ser enterrado com a camisa da Ferroviária. E por falar em morte Paschoal pegou uma mania que acabou virando obsessão. Passa todos os dias pelo velório municipal para se ver se algum amigo ou conhecido faleceu. “Toda vez que falece uma autoridade no municipal faço se tiver oportunidade um discurso e até peço aplauso e quando vai indo para a derradeira hora do enterro, fotógrafo”.
Paschoal diz que conseguiu se livrar do alcoolismo. “Muitas vezes ia de carro e não conseguia voltar. Ligava para minha mulher que ia de ônibus e voltava dirigindo o carro. Graças a Deus isso acabou”.

Reminiscências

Como trabalhava no esporte e tinha como compadre o Wilson Silveira Luiz, locutor num programa na Rádio Cultura, também na área esportiva, Paschoal sugeriu ao amigo que montassem uma sala de fotografias relacionadas ao esporte. “Assim começou. Tirávamos fotos, comprávamos, o pessoal nos doava. No início era um cômodo na minha casa.

Atualmente a Sala de Reminiscências ocupa oito cômodos da minha casa. Há dois anos teve início a construção de uma sala na Ferroviária, mas não coube tudo e as fotos retornaram para minha casa”. Para se ter uma idéia, na casa de Paschoal há 5.500 quadros nas paredes. “Tem de todos os times amadores de Araraquara, dente de leite, futebol, basquete, vôlei, Ferroviária, Palmeiras, Corinthians, Santos, entre tantos outros. Quem jogou futebol desde criança esta na sala e eu conheço quase todas as pessoas que participaram dos campeonatos da cidade. Eu acompanho tudo”.
Muita gente, mas muita gente e principalmente atletas já passaram pela Sala de Reminiscências, que fica na Vila Xavier: como Milton Neves, Fiore Gigliotti, o ex- governador de São Paulo, José Maria Marin; Del Nero, que foi presidente da Federação, bem como diversas autoridades como prefeitos, vereadores, deputados, além de inúmeros artistas.”Muita gente vai para ver as fotos deles”. Quando a Arena da Fonte foi reinaugurada, Paschoal da Rocha chegou a ser barrado, mas ele diz que essa questão já foi resolvida. “Agora o pessoal que toma conta já conhece o trabalho e sabe que as fotos do Museu do Futebol, na maior parte é colaboração nossa”, diz. Ele confessa que ficou triste ao ser barrado no local que viu construir. “Hoje a maioria do pessoal que comanda o esporte não tem memória do que foi a Ferroviária. Quando, por exemplo, recebo um jogador que foi grande na Ferroviária, atendo eles bem e levo na Sala, pois vi jogar. São atletas do tempo em que jogador não ganhava nada. Levavam a chuteira de casa para jogar na Ferroviária. E o time surgiu a partir da Estrada de Ferro. Até 1975 era tudo comandado pela ‘Estrada’ e depois disso passou para a cidade organizar.
Foi onde a Ferroviária caiu um pouco e perdeu tudo que tinha de propriedade por causa de má administração, pois contratavam bons jogadores de fora, e não tinham dinheiro para pagá-los, mas o que parece que não sabiam é que os melhores jogadores eram daqui de Araraquara mesmo. Foram feitos aqui no tempo do Picolin, do Tota, do Douglas Neves e agora a Ferroviária não tem mais time de base, pois acabou a escolinha. A Ferroviária agora são onze camisas. Vejo isso como uma coisa triste, especialmente para mim e para os antigos como eu de Araraquara. Esperamos que um dia isso mude, mas para isso é preciso mudar a mentalidade das pessoas que comandam a Ferroviária e que tenham união. É preciso que entendam que a Ferroviária não tem dono. A Ferroviária é da cidade. A hora que acabar esses ‘negocinhos’ que tem ai, a Ferroviária volta”. No aniversário da Sala de Reminiscências, dia 24 de maio, Paschoal conta que costumavam fazer um churrasquinho em sua casa. Posteriormente virou um jantar no 22 de Agosto. Depois passou a ser realizado no Melusa. “Em 2005 passou a ser feito no Clube Araraquarense e estamos lá até hoje. A Sala este ano completa 30 anos”. Para esses jantares já vieram muitos jogadores como Peixinho, Maritaca, Dudu, Machado, Tinto, Catani, Leivinha, Claudinho, Rondinelli, entre outros. “Uma de minhas tristezas foi a morte de Fiore Gillioti, narrador de esportes”. Paschoal também costuma colecionar tudo que sai nos jornais da cidade a respeito de esporte como a coluna “O papinho da Cidinha”, da Folha da Cidade; coluna do Gilmar Leite, entre outros. Paschoal lamenta que muitas crianças só fiquem em frente ao computador. “Antigamente as crianças para jogar bola chegavam antes que o porteiro do clube. Hoje vão praticamente forçados”.

Futebol

A paixão pelo futebol ele explica. “Sempre fui aos jogos da Ferroviária. Acompanhei desde que ela começou em 1950. O primeiro jogo foi Ferroviária e Mogiana, no estádio municipal. A Ferroviária não tinha nem o campo”. Outro time do coração é o Palmeiras. A devoção vem de criança quando seus vizinhos palmeirenses o levavam aos jogos. “Mas a primeira paixão é a Ferroviária”. Já o envolvimento mais efetivo com o futebol começou quando Paschoal começou a trabalhar como coordenador de esportes no Clube Náutico, em 1970, aos sábados e domingos, onde organizava os campeonatos de várias modalidades como bocha e futebol. Posteriormente foi para o Araraquarense também coordenando o esporte. “Era um tempo em que quase não havia professor de educação física na cidade”, conta Paschoal, acrescentando que também passou pelos Clubes 22 de Agosto, Melusa e Ferroviária. “Já na Ferroviária, além de coordenar os campeonatos de futebol, fui cobrador, porteiro, bilheteiro. De tudo um pouquinho. O time jogava fora eu acompanhava. Ah! e tenho a foto de tudo isso guardado. A Ferroviária é o time da minha paixão por isso que ando pelas ruas com a camisa do time e agora estou colocando o gorrinho também”. Paschoal Gonçalves da Rocha, 68, é um homem muito simples. “Muitos me dizem que sou puxa-saco de gente ‘grande’, mas não nego que trato bem as autoridades. Isso de eu chamar quem tem diploma superior de doutor para mim é educação. Parece até que procuram fazer mais coisas boas. Para se ter uma idéia, no campeonato dente de leite de 1970 os que não foram jogadores da Ferroviária, hoje são todos engenheiros, dentistas, médicos, juizes de direito. Pena que perdemos o Clemente e o Zé Lemão. Também já está cansando”, diz preocupado com a nova geração que, segundo ele, tem que se dedicar mais aos esportes de campo e natação.


(Publicado em 23 de maio de 2010)

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