sábado, 29 de janeiro de 2011


Gê Negrão – Geraldo Hilário da Silva Filho


O famoso apelido surgiu principalmente por conta de ser moreno e por gostar de música, em especial o samba



Nascido em Araraquara no dia 5 de janeiro de 1954, esse grande cara, literalmente, passou a primeira parte de sua infância no São José. “Me lembro que brinquei muito no parque infantil ‘Carmelita Garcez’ e outra parte passei no bairro do Carmo, onde morei até os 17 anos”. Gê, que é engenheiro civil, trabalha numa empresa, mas nunca abandonou a sua grande paixão que é a música. “Essa paixão começou no grupo escolar ‘Florestano Libutti’, onde o diretor era o Aristides Bussadori. “Eu tinha 8 anos de idade e já cantava. Também me recordo que no grupo tinha um orfeão e eu sempre fui ligado à arte. Se não me engano, uma sexta-feira de cada mês, as classes, naquela época, cantavam o Hino Nacional no galpão do grupo e cada classe tinha um ou dois alunos que recitavam, faziam poesia.
Eu sempre estava no time daqueles que declamavam. No próprio grupo tinha o Orfeão regido pela Maria Gaspar. Assim, duas vezes por semana quando terminavam minhas aulas pela manhã eu ficava junto com um outro amigo, o Gilson. Os ensaios aconteciam no anfiteatro da escola para ensaiar o canto orfeônico. Eu gostava daquilo.” Gê se recorda que sempre assistia ao programa Clube dos Artistas, especialmente o Almoço com as Estrelas, com Airton e Lolita Rodrigues. “Eu via as orquestras tocando e observava os bateristas. Eu via, mas não tinha essa informação. Assim, arrumei algumas latas, umas maiores e outras menores e montei uma bateria no fundo de casa. As vezes fico pensando que idéia foi essa de montar uma bateria e tocar com o cabo de vassoura? Tocava do meu jeito, mas o ritmo já estava ‘ juntando’ com a parte de canto.” Nessa questão de ritmo, Gê Negrão conta (rindo) que o músico Didinho Haddad sempre o convidou para tocar com ele, para estudar. “Ele é baterista e considera que eu tenho um ótimo ritmo. Eu nunca fui. Didinho até hoje me diz que está me esperando para eu ir a casa dele cada vez que nos encontramos.”

Os Bersanetti

Assim o tempo foi passando. Gê terminou o grupo e começou o ginásio e lá tinha um grupo de amigos, de uma família tradicional do Carmo, os Bersanetti. Dinho, Salame, Carlinhos Bersanetti, Lelei, Mirandinha, Caduco, Tuca, Zinho, Desastre e outros. “Eles tinham um grupo de samba que sempre se reunia no carnaval e eu era muito amigo da família e nisso ficava vendo o pessoal tocar. De vez em quando alguém dizia para pegar um instrumento como um tamborim. Assim comecei a tocar com eles.
Quando dava os intervalos da orquestra do Clube 22 de Agosto a gente entrava e começava a cantar aqueles sambas antigos e aquilo foi ‘virando’.” Nessa mesma época o ginásio Victor Lacorte não tinha fanfarra. “Assim, todos os alunos, juntamente com o diretor da época, Paulo Cochar, arrecadaram dinheiro, adquiriram instrumentos e montaram a primeira fanfarra da escola. Mas eu já estava me formando e quase saindo de lá, pois não tinha colegial.” Quando foi para o EEBA em 70, a primeira providência de Gê Negrão foi fazer parte da fanfarra da escola. “Em 71 eu já era instrutor da fanfarra e lá fizemos uma revolução colocando as meninas para tocar na fanfarra. Surpreenderam, pois tocavam muito bem, algumas superavam os meninos em talento”.

Festivais e serenatas

Dali do EEBA Gê começou a participar de festivais de música em Araraquara acompanhando alguns grupos, mas sempre na percussão. “Nessa época eu já havia começado a estudar violão. Quando terminou o colegial, fui para a faculdade (Logatti) de engenharia civil. Nessa mesma época conheci o Zé da Conceição e cantei muitas vezes com ele.” Gê conta que também montaram as escolas de samba, as baterias do Clube Araraquarense que fizeram, segundo ele, sucesso pra ‘xuxu’ nos anos 70. “A Escola de samba ‘Apesar de você’, onde o Tadeu Correa da Silva, Cardoso, Padeirinho, Salomão, Carlão, Marinho Belarde, Teroca, Claudião, Aru, Tuca, Paulinho Pasetto, Toninho Bitinga, Vartela, Amarelinho, Lau, Abi, Borghi (in memoriam), meu irmão João Renato (in memoriam), Ivan, Sergio Português, Carlinhos Java (in memoriam), Chiquinho Baterista (In memoriam), entre outros, tocavam também.” Gê conta que foram tocando e fazendo serenata. “Sempre gostei de fazer serenata com um grupo de amigos. Desde a época do ginásio. Escolhíamos uma menina e lá íamos nós. Muitas vezes bastava dizer que morava uma menina em certa casa que fazíamos serenata, às vezes nem sabíamos quem era. Às vezes aparecia, pai, mãe que convidava a gente pra entrar e a gente não sabia o nome de ninguém. A gente cantava pra eles também que gostavam”.

Pedaços de Choro

Essa paixão por cantar fez com que Gê também integrasse grupos musicais. “Desde 96 faço parte do grupo ‘Pedaços de Choro’, que tinha em sua composição Flávio Módulo, Tinho, Carlinhos Bersanetti, Marcos Lima, Itamar e Peru (in memoriam). De 1989 até 2007 fiz parte do Coral Araraquarense regido pelo maestro Moacyr Carlos Júnior e depois passei a integrar o coral Cantus Nobile, regido por Susy Mendes, além disso toco flauta transversal e sax”, conta dizendo que está sempre estudando. Negrão revela que adora música erudita e popular e que estuda flauta com o amigo e professor Claudinho Pesse, além de tocarem juntos.
Quando era garoto, o pai de Gê Negrão sempre quis que tocasse um instrumento. Foi quando começou com o violão. “Meu pai queria que eu tocasse sax e que meu irmão tocasse violão. Assim, eu e meu irmão fomos levando o violão e o sax ficou pra trás. Depois de muito tempo fui vendo, tocando, por estudar flauta, outros instrumentos, jazz, música brasileira fui me apaixonando pelo sax tanto quanto sou pela flauta.” Gê Negrão reflete ao ser indagado sobre fatos marcantes que ocorreram com ele durante sua trajetória musical. São tantas coisas que ele declina de falar, ele que também tocou muito na noite, orgulha-se de ter tido contato com grandes músicos. Recentemente uma das filhas de Gê, Marina, se casou. Ele entrou na igreja e ficou esperando pela filha ao invés de fazer a tradicional entrada do pai levando a noiva até o altar. “Todo mundo ficou na dúvida se perguntando como é que eu tinha entrado e a minha filha não? Mas eu peguei o microfone e fui ao encontro dela cantando ‘Marina’, conta ele emocionado. Assim é Gê Negrão, não somente um homem grande, mas um grande homem.

Grandes caminhos

Para Gê Negrão a música e o esporte são o grande caminho que leva à disciplina e ao respeito. “Quando você estuda música tem que cantar um pouco mais baixo, principalmente quando canta em coral e toca em grupo, pois não posso dar um acorde adiantado do outro. Tenho que esperar, respeitar o tempo para chegar naquele outro acorde, respeitar o volume que estou cantando para aparecer aquela outra voz. Isso já é disciplina, ou seja, meu direito vai até a hora que para lá e começa aqui, começa aqui para lá.
Todos juntos, um não pode destacar do outro, onde tenho que me preparar bem se não vou estragar o dos outros. Então, tanto na música quanto no esporte, pois são paralelas, não adianta a equipe treinar e eu não. Na hora em que for jogar vou atrapalhar o jogo.” Gê Negrão é filho de Geraldo e Maria, irmão do saudoso João Renato.
É casado com Pia há 30 anos é pai de Marina e de Carolina. Para ele ainda falta muita coisa para realizar. “A gente sempre tem vontade de fazer alguma coisa a mais”, diz ele acrescentando que seu envolvimento com a música e com o esporte o ensinaram muito e agradece a todas as pessoas que possibilitaram isso a ele, da disciplina às orientações, principalmente na maneira de se viver, valorizando todas as coisas da vida.

Vôlei

Por conta da alta estatura, Gê Negrão quando entrou para o EEBA passou a jogar na seleção juvenil e jogar na seleção de Araraquara. “Joguei vôlei de 1970 a 1977, sendo que em 73,74, joguei pela cidade de Bauru.” Indagado sobre o porquê não ter seguido com o vôlei, Gê conta que não havia esse incentivo como agora. “Era muito mais difícil. Teve gente que até chegou a ser convocado para uma peneira que teve para a seleção paulista.
Tinha um time bom em Araraquara, onde jogava o Yanke, o Turco, Gil, Tato, Lopasso, Paulo Schwartman, Tatalo, Brandão, Adalberto, Tomás, Lopassinho, Carlinhos Haddad, Nelsinho Solci (in memoriam), Marco Antonio Haddad, o Miudinho (in memoriam), entre outros. Joguei com todo esse pessoal”, diz saudoso não se esquecendo de citar que o técnico era o professor Urias, no EEBA, o professor Volmes.
Um fato marcante Uma vez jogando vôlei por Bauru contra o Santo André, em São Bernardo, mais de 85% dos jogadores eram da seleção brasileira, inclusive um dos jogadores era o famoso Moreno. Certa hora do jogo Gê Negrão se viu frente a frente com ele, que era seu ídolo. Sobrou uma bola para ele, Moreno. Ele ‘subiu’ deu a maior pancada do mundo. A bola espirrou longe. Ponto deles. Aplausos e mais aplausos. Quando ele passou pertinho da rede disse baixinho para Negrão sem que ninguém percebesse: “desculpa cara”. Para Negrão isso foi demais, pois ele teve que fazer aquela cortada. Regras do jogo. Mas a verdade é que se o golpe pega na orelha ‘matava’.

(Publicado em 14 de março de 2010)


Marcelo Barbieri, o arquiteto de si mesmo!

O menino tímido do interior surpreendeu os colegas do colégio da capital, o Rio Branco. Era mesmo ele? Sim. Era ele, que com sua marca principal, a determinação, ganhou projeção nacional e realizou seu maior desejo: ser o prefeito da cidade em que nasceu.

Marcelo Fortes Barbieri, atual prefeito de Araraquara, nasceu no dia 21 de novembro de 1.956, na Maternidade Gota de Leite. Na época seus pais Nelson Barbieri e Maria Ruth Fortes Barbieri moravam na Avenida Feijó com a Carlos Gomes, na esquina. Ali, Marcelo, que tem como irmãos Maria Cecília (arquiteta), Nelson (engenheiro), Renato (cineasta) e Estela (educadora e artista plástica), passou toda a infância e adolescência. Ele enaltece o período de sua adolescência. “Isso marcou a minha vida, pois estudei no ‘Antonio Joaquim de Carvalho’, ‘Pedro José Neto’ e no ‘EEBA’, onde colegas e professores como Altamira Montese, Lurdes Palota, Dona Ruth, Ulisses, Dona Cidinha e a Dona Miriam, que me ensinou a ler jornal. “Comecei a ler jornal n’O Imparcial, que sempre fez parte da minha vida, tanto que o seu diretor, o saudoso Paulo Silva, foi uma pessoa que me influenciou muito.Mesmo depois de meu pai ter morrido, pois eram muito amigos, ia me visitar sempre na loja. Foi um professor também”.
Aos 17 anos foi para São Paulo fazer os últimos anos do colegial no Colégio Rio Branco, onde estudava Ayrton Senna e a irmã Viviane que era da sua turma. Ali foi goleiro do time de handbol e futebol de salão. Era o ano de 1975. Posteriormente, em 1975, ingressou na Faculdade Getúlio Vargas (FGV), onde se formou em Administração de Empresas. Marcelo também cursou Economia e Geografia na USP, mas não chegou a se graduar. Barbieri conta que antes de ir para São Paulo não havia pensado em se envolver com a política. Aqui em Araraquara era apenas mais um estudante normal, um adolescente que praticava muito esporte, especialmente a natação, além de gostar muito de estudar e, principalmente, de ler muito. Seu envolvimento com a política praticamente começou quando estudava na FGV. Ali foi eleito representante de classe. “Nessa época mataram o Vladimir Herzog e eu estava na escola no dia em que eles o mataram. Estava vendo um show do Grupo Tarancon e no meio da apresentação foi anunciado o assassinato dele no DOI-CODI. Isso detonou a primeira greve que participei, que a nossa classe propôs à faculdade parar em protesto. Levei a proposta para a assembléia em nome de minha classe e a mesma aprovou em protesto pelo assassinato do jornalista”. A partir desse fato, o até então tímido rapaz do interior foi se envolvendo. De representante de classe passou a diretor do centro acadêmico, depois presidente do centro acadêmico da FGV. Posteriormente, diretor da União Estadual dos Estudantes e mais tarde,vice-presidente da União Nacional dos Estudantes,UNE, na reconstrução e depois no segundo mandato, diretor de relações internacionais da UNE.

MDB

Em 1975 se filiou e começou a atuar no MDB, pois era contra a ditadura. “Quando foi fundado o PT, Partido dos Trabalhadores, participei da reunião de fundação, pois era vice-presidente da UNE e fui convidado. Foi num restaurante em São Bernardo. Mas resolvi não entrar para o partido e ficar no PMDB, pois achava que o mesmo tinha mais condições de fazer a transição do período ditatorial para a democracia. Foi uma opção política minha de ficar no PMDB, portanto eu nunca sai do partido. Tanto que quando virou PMDB por uma força maior da ditadura, na época, que quis acabar com o partido, eu continuei no PMDB. Fui vice-presidente nacional do partido, cheguei a ser presidente nacional durante um período, depois fui tesoureiro do partido em São Paulo”.

Barbieri explica que primeiro foi presidente do partido em Araraquara, em 1.986, na época em que Clodoaldo Medina era prefeito e ele o convidou para assumir a presidência do partido. Na época, Marcelo atuava como empresário, pois o pai dele tinha falecido e havia voltado para Araraquara para ajudar e assumir a empresa da família. “Depois do período da época estudantil, em 1.982, fui candidato a deputado estadual com Montoro, morava em São Paulo e já tinha um filho. Perdi a eleição e o Montoro me convidou para trabalhar na secretaria da Educação do Estado, onde fiquei de 83 a 84. Em 84 meu pai estava com câncer muito mal, e me chamou para voltar para Araraquara”. Barbieri ressalta que voltar para Araraquara não foi algo doloroso, pois estava bem. “Se fosse em 82 quando perdi a eleição. Nessa época meu pai já havia me chamado para voltar. Não voltei, pois estava mal. Havia perdido a eleição e tinha dívida. Senti que não seria bom voltar, mas em 84 a situação era outra. Eu já tinha regularizada a minha situação e, portanto, não me senti numa condição de fraqueza para vir para Araraquara e meu pai estava muito mal, tinha assumido a empresa dos irmãos que haviam separado o patrimônio que tinham em comum, e tinha a loja, a Constrular Barbieri, além da construtora dele. Assim eu fiquei na loja e meu irmão que é engenheiro, o Nelson, havia ficado na construtora. Isso foi em 84.”
Desse Barbieri ficou trabalhando em Araraquara e não foi mais candidato em 86. Depois as empresas que a família tinha em comum se separaram, pois cada um queria tomar um rumo. Com isso a empresa foi desativada e Marcelo ficou com a loja. Mas em 1990 resolveu sair candidato a deputado federal pela região. “Na época ninguém acreditava que eu fosse me eleger, nem a minha mãe. Mas eu acreditava, até parecia meio lunático, e acabei tendo 46 mil votos, sendo 26 mil de Araraquara”. Vale lembrar que havia 20 anos que Araraquara não elegia um deputado. “Assim trabalhava em Brasília e em São Paulo. Como tinha a minha empresa, pedi para o Paulinho Rodrigues administrá-la. Depois a Zi, minha esposa, ficou um tempo na loja e quando fui reeleito em 94, como eu tocava a loja, na época, que era familiar, desativamos a mesma. Ai fiquei 94, fiquei 98 e em 2002 sai a federal e fiquei suplente. Em 2003 o Lula me chamou para trabalhar na Casa Civil como assessor especial dele no Palácio do Planalto, onde fiquei de março a dezembro de 2003”.

Araraquara

Depois de ter trabalhado na Casa Civil, Barbieri voltou para Araraquara e se candidatou a prefeito em 2004. Em 2005 assumiu a Câmara Federal, onde ficou até 2006. “Não fui candidato a deputado federal, apoiei o Dimas e o Massafera, que se elegeram e sai candidato a prefeito em 2008 e fui eleito. Eleito na quarta tentativa, Barbieri conta que o desejo de ser prefeito surgiu depois de acompanhar muito os trabalhos dos ex-prefeitos Valdemar De Santi , Clodoaldo Medina e Rubens Cruz . “Lembro que o De Santi era do MDB e meu voto para prefeito foi dele, pois na época era do meu partido. Depois votei no Medina, que também era do meu partido. Depois o Massafera era prefeito e eu era deputado federal . Acompanhei muito os trabalhos dos prefeitos e comecei a ver que o prefeito realiza e o deputado pede, discute as leis, mas não as executa. E eu, por ter sido empresário, ter acompanhado meu avô e meu pai, que foram empresários, aprendi a ter atração pela parte executiva de empreender, de fazer.
Então essa ‘obsessão’ por ser prefeito era um desejo de realizar. O prefeito tem mecanismos de realização que o deputado e o Legislativo não têm. Gostei de ser deputado, aprendi muita coisa com pessoas relevantes como Ulisses Guimarães, sobre o mundo, o que me deu muita bagagem e para exercer essa experiência no Executivo. Tinha vontade de ser executivo. Fiquei 14 anos no Legislativo e um ano no Palácio do Governo Federal, que me deu mais ânimo de viver o executivo”. Barbieri é indagado sobre o fato de ter se chegado mais à população, de fazer o chamado ‘corpo a corpo’ fez alguma diferença nas urnas. Ele responde que sim, pois o deputado federal fica muito em Brasília, o que acaba o distanciando, pois não há essa presença cotidiana. “Quando não fui candidato a deputado, em 2006, comecei a trabalhar numa outra empresa minha, pequena, mas com outra característica. Assim convivi mais no dia-a-dia da cidade e me envolvi com alguns projetos, como o da termoelétrica. Fiquei morando aqui direto e como deputado ficava muito em Brasília e em São Paulo, ou seja, ausente da cidade. Fui lançado pelo partido em 2007. Tive um ano para trabalhar e foi completamente diferente do que tinha sido antes”. Barbieri diz que um prefeito, diferentemente de um deputado, fica muito próximo da população por conta do trabalho desenvolvido por cada um deles.
O prefeito, por exemplo, vê desde o problema que uma pessoa está tendo com uma febre até o buraco de uma árvore, mas que é importante para aquela pessoa. “ Você tem que cuidar disso, desse dia- a- dia, do buraco, do cupim, mas também das coisas grandes como o da universidade de música”. Para Barbieri, o fato de se aproximar mais da população teve um saldo positivo tanto que acredita que isso o ajudou a ser prefeito, tanto que continua atendendo a população num dos dias da semana especialmente marcado para esse fim. Marcelo diz que essa espécie de agenda tem lhe trazido muito, pois as pessoas falam a verdade, trazem o problema ‘cru’, sem maquiagem. “ Isso me ajuda muito a administrar, pois um caso, às vezes, representa vários casos e está prejudicando a administração e não estava sabendo. “Também não consigo saber tudo, mas ouvindo a população eu vejo muita coisa. 80% dos casos são resolvidos, pois há as barreiras legais e materiais, mas a maioria consigo resolver e isso me deixa satisfeito. Sei que temos que resolver os problemas gerais, mas às vezes é necessário resolver o problema da pessoa humana, pois para ela faz diferença. Muitas vezes ela não consegue resolver com ninguém e vem comigo e eu consigo. Pois a gente tem a força política para resolver. Não estou sendo bonzinho, estou vendo utilidade em fazer isso, me trazem questões que me ajudam a entender o que tem de errado na gestão”.

Quércia

Um fato marcou o Brasil: a abertura das contas do político Orestes Quércia. “Quiseram aprovar a abertura das contas e eu fui contra. Não abri as contas dele. Pedi vistas e ao pedir vistas eu criei uma situação política tensa. Depois abriram, mas não tinha nada. Tanto que a CPI que foi da VASP foi 100% arquivada pelo Ministério Público Federal, que não encontrou nenhuma irregularidade, que é o que eu defendia, pois acompanhei o processo de privatização da VASP. Foi uma boa para o governo estadual e era, se não me engano, um prejuízo de 600 milhões. O Quércia vendeu para o Canhedo, se livrou daquela bucha e depois, infelizmente, a VASP veio a falir, mas faliu como empresa privada, não como Estado. Não tem nenhuma ação contra o Estado por ter se tornado uma empresa privada e o Ministério Público Federal mandou arquivar, pois não tinha nada errado”. Por conta disso Marcelo ficou muito conhecido e não foi uma coisa fácil. “Foi um desgaste emocionalmente falando, mas eu estava convicto de que estava certo e estava com minha consciência limpa de que estava fazendo uma coisa que era justa.
Naquela época, o Quércia, hoje não mais, foi muito criticado e atacado. Não é agradável sofrer um ataque violento da imprensa e eu fiquei junto com ele. Para mim, na verdade, foi um teste de personalidade para que ver se eu tinha caráter ou não, porque você ser amigo da pessoa quando ela está no poder é uma coisa, agora como ele estava fora , marginal ao poder ninguém queria chegar perto. Fui um dos poucos que ficou. Sou companheiro dele desde 1979, quando fui vice-presidente da UNE e ele me ajudou a fazer o Congresso que levou 10 mil estudantes do Brasil inteiro a Salvador. Foi algo muito emocionante. Precisava ter coragem de ajudar um evento como aquele e ele teve”. Na época da abertura das contas de Quércia, o pedido de vistas de Marcelo foi motivo de vários ataques como os editoriais contra ele, principalmente de um dos maiores jornais do Brasil, o Estadão. Uma vez publicaram que ele tinha envolvimento com o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Utilizaram para isso um homônimo. A pessoa envolvida no caso era o Marcelo Chalu Barbieri e eu Marcelo Fortes Barbieri. Ele era sobrinho de um bicheiro chamado Zinho. “O Estadão colocou na manchete, tenho guardado isso num quadro: ‘Deputado quercista envolvido no jogo do bicho’. A Lilian Wite Fibe, que apresentava o jornal, também me atacou. Fui ao Rio e falei com o procurador Biscaia, provei que não era eu e ele me deu uma carta comprovando, pois não era eu. Tudo isso foi fruto desse processo que quiseram me envolver num projeto mentiroso, numa coisa caluniosa e que comprovei que era mentira. São coisas que aconteceram e que hoje fazem parte da história. Não tenho nenhuma mágoa por conta disso, pois acabou sendo importante, pois você adquire mais consistência quando passa por momentos de dificuldades”.

Fama de briguento

A fama de bravo, Marcelo coloca na conta da descendência calabresa e vai explicando um pouco da história da razão de sangue de calabrês ser quente. “A Calábria foi invadida pelo império otomano e os árabes quando invadiram a Itália, o comandante Nabucodonosor, das tropas otomanas, mandou queimar os navios e disse : ‘daqui ninguém volta’. Então imagina a tensão que os caras viviam. Se repararem podem notar nas feições da minha família, nós temos uma certa proximidade com árabes, pois realmente aquela região, sul da Itália, sofreu um forte influência árabe naquele período. O povo calabrês é um povo meio briguento, mas hoje estou bem mais calmo”.
Ele conta que quando enfrentou a ditadura, sendo preso por três vezes, numa delas no porão do DOPS, onde ficou por dois dias e duas noites. Sem motivo algum. Algo triste e deprimente, segundo ele. “Aquilo eu tive que enfrentar e se não tivesse força tinha sucumbido ou não teria me metido. Ou eu entrava ou não entrava. Não havia meio termo. Enfrentei Erasmo Dias, que mais tarde acabou virando meu amigo, o Tuma, que era chefe do DOPS, me prendeu, acabou virando meu colega de parlamento. Tudo bem, superei isso. Não tenho mágoa de ninguém. O que não gosto é de coisa errada, de má índole, má fé e, principalmente, não gosto de mentira. Aprendi que você não deve ficar do lado da mentira. O político que faz isso se arrebenta. Tem que ficar do lado da verdade, mesmo que as pessoas não gostem dessa verdade.Hoje tenho muita paciência, adquirida com o tempo, de ouvir e de ponderar”.
Mas uma coisa que Marcelo não admite é a quebra de hierarquia em qualquer setor. Tanto que se algum secretário estiver errado, ou revê a sua posição, mas que ele não pode desautorizá-lo para alguém abaixo dele. “Se assim for é melhor mandá- lo embora. Isso é um processo de amadurecimento. Não nasci assim. A chance de errar é menor se você amadurece. Então, hoje a minha capacidade de explodir é muito pequena. Às vezes acontece quando me deparo com uma mentira e a calúnia, pois ela me indigna. Isso eu enfrento. Não deixo barato, pois tenho que preservar a minha honra. Perco a paciência, me irrito com a mentira”. Quanto à invasão que promoveu no jornal O Imparcial e acabou virando ‘lenda’, Barbieri conta que saiaram no referido matutino, em1996, uma pesquisa feita por seu amigo Viana, que o colocava em terceiro lugar. “Estava errado e fui conversar com ele. Não invadi. Bati na porta e disse que queria falar com o Viana, que fugiu. Mas o respeito muito. Quanto ao fato, pedi desculpas a Dona Cecília, na época diretora do jornal. Nessa eleição cometi muito erros. Já fiz auto critica de vários deles. Briguei com o De Santi e não tinha que brigar. Depois fiquei amigo dele e recebi seu apoio. Depois ganhei dele. Depois de três eleições, a quarta foi a que menos errei. A gente vai aprendendo e reconhecendo os erros”.

Marcelo por Marcelo

O Marcelo é uma pessoa que aprendeu muito com a vida. “Eu voltei para ficar com meu pai quando ele estava morrendo e eu procurei um caminho meu. Fui ser político porque eu queria ser político. Meu não era político e era contra a política, assim como minha mãe. Meu tio Dinho foi deputado quando eu nasci, em 56, e teve todo um trauma familiar por conta disso. Minha família com isso tinha certa aversão à política. Mas eu decidi que ia seguir o meu caminho. Sempre tive determinação. Quando entro numa coisa, não entro mais ou menos. Entro pra valer. Se eu vou ser prefeito vou ser prefeito pra valer, então vou cumprir todas as funções: da comida aos projetos”. Ele dá um exemplo dessa determinação. “Quando tinha 13 anos o cigarro surgiu como algo maravilhoso e fantástico, mas eu fazia natação, o treinador era o Ricardo Simões, que disse quem fumar, pára de nadar. Eu gostava de nadar chegando a 10 mil metros por dia. Era fundista. Ficava nadando e isso me possibilitava ficar meditando. Era um prazer, uma satisfação muito grande. Então, eu nunca fumei. Fui motivo de chacota na época, meu amigos, infelizmente, alguns deles não estão mais entre nós, começaram no cigarro, foram para o álcool e depois para as drogas. Óbvio que hoje o problema das drogas é muito pior, mas já existia. Nesse caso não aceitei a droga, com isso muitos dos amigos se afastaram de mim. Não é porque o outro pensa diferente de mim que vou atrás do que ele pensa para agradar, por isso que às vezes me indisponho, pois se acredito em algo não vou abrir mão, a não ser que argumentos me provem o contrário. Pode vir o mundo contra. Aprendi ao longo dos meus 53 anos a buscar um caminho que eu tenha convicção para chegar a algum lugar. Sou assim em tudo, na vida política, empresarial e pessoal. Quando acredito numa coisa vou atrás”.

Família

Marcelo é casado com Maria Helena Rolfsen Moda Francisco Barbieri, chamada carinhosamente de Zi, há 16 anos. Barbieri tem 4 filhos: Nelson, 27, Izadora, 17, Matheus, 11 e Caio, 5. Marcelo plagia o amigo Quércia e diz que em primeiro lugar você tem que ter o compromisso de estar vivo, em segundo lugar o compromisso com sua família e depois o compromisso com seu país. “A família é uma extensão da sua vida, se não tiver compromisso com sua família é difícil você ter compromisso com a sociedade. Isso é uma coisa de italiano também, pois a minha família sempre foi muito ligada. Lembro que meu tios, meu pai e a gente vinha comer o macarrão da vó Romilda todos os domingos”.
Marcelo diz que a família é muito importante, mas que fez um casamento muito jovem. Tinha 21 anos quando casou com mãe de seu filho Nelson, do Rio de Janeiro. Também foi pai muito novo. “Não deu certo. Tive que vir morar em Araraquara. Pois casamos no Rio e morávamos em São Paulo. Quando meu pai me chamou, ela não quis vir. Gostava dela. Casei por amor. Foi muito dolorido, mas tive que me separar. Ai teve uma fase da vida que fiquei solteiro e acabei tendo uma filha, que é a Izadora, mas não casei com mãe dela. Ai achei que deveria casar de novo e casei com a Zi, mas não foi fácil casar com a Zi. Tive que brigar para casar com ela, que na época estava namorando, ela brigou com o namorado, ai eu casei com ela. Presentei a Zi com muitas flores antes de casarmos, mas ai ela dava as flores para o Neto, que é filho de Maria, e ele levava para a igreja. Acabou que a Nossa Senhora ajudou e casamos”. Marcelo diz que pretende fazer um grande governo em Araraquara, que marque a história da cidade e assim como seu slogan que traga desenvolvimento para todos. “Espero chegar em 2012 com a minha missão cumprida, ou seja, cumpri aquilo que prometi, principalmente na questão ambiental e de acessibilidade”.

(Publicado em 30 de maio de 2010)

Edna Nogueira: o violino é a minha vida!

A violinista que se profissionalizou aos 18 anos diz que nunca vai se aposentar, pois a música na velhice é terapia

A violonista Edna Nogueira ministra aulas de violino e teoria musical desde 1939 e coordena a Orquestra Filarmônica Experimental da Uniara e o Conjunto Instrumental Feminino. No dia 2 de junho ela vai completar 90 anos. Conhecendo-a de perto a nossa admiração cresce a cada instante. Sem perceber vai fazendo com que a gente se sinta em casa. “Olha vai tomar café ali na cozinha. Olha vem olhar esse bordado que fiz. Nos fala de seus filhos, de seus netos, dos alunos como o dr. Abelardo e Leidi, que tiveram aulas de violino com ela. Ela também conta que plantou inúmeras árvores frutíferas e plantas em frente à sua casa. Fala de sua geléia especial de pinga e aos poucos vai nos contando sua vida, de seus projetos, de sua música. Ela nos mostra tudo. É uma mulher cheia de sentimentos fortes.
Diz que embora trabalhe com música nunca teve ganas de aparecer com ela. Vai nos falando timidamente das homenagens recebidas em forma de poesia ou de crônicas, como a do escritor araraquarense Ignácio de Loyola que um dia escreveu que Edna Nogueira era uma daquelas pessoas diante da qual temos vontade de nos ajoelharmos para que passe com sua simplicidade, talento e musicalidade. Que gente como ela ilumina uma cidade. Ele pergunta onde ela encontra tempo para fazer tudo o que faz e ainda por cima faz doces. Sim ele de fato sabe o que diz: é uma mulher de projetos, de sonhos e de alunos. Mas ela, apesar de conservar sua grande alegria de viver, guarda uma grande tristeza: a perda do marido João. “Ele era minha vida, meu amor, meu tudo”, diz acrescentando que foi único: namorado e marido.
Edna nasceu em Santa Rita do Passo Quatro, mas a família mudou-se para Araraquara quando ainda era menina. Quando era criança tinha vontade de ser pianista, mas naquela época os pais não podiam pagar. Então pegou o violino do irmão Teodoro Nogueira para estudar. Tanto que se formou professora de violino no Conservatório Musical de Araraquara em 1939. A partir daí ministrou aulas de violino. Vale lembrar que o irmão de Edna, Ascendino Teodoro Nogueira, falecido em 2001, além de violonista foi um grande compositor. Teodoro também é pioneiro no estudo técnico-musical da viola caipira. A violonista conta com entusiasmo que em 1998 implantou o projeto ‘Cantigas de Roda’, idealizado pelo irmão a quem chama de inteligente, Teodoro. “Eram quatro rodas infantis, com três músicas tiradas do folclore brasileiro. No projeto realizado junto com a Orquestra Infanto-Juvenil, foi criado um Coral Infantil que estreou em Araraquara. Depois nos apresentamos no Sesc em oito cidades. “Foi algo maravilhoso”, diz emocionada. “O que ainda espero? Continuar tocando até a hora da minha morte.”

Breve currículo

Edna, a valsa Ser mãe Música com sabor: violonista Edna Nogueira também é uma doceira de mão cheia Fotos: Leandro Pardine Edna formou a equipe de Canto Lírico antes de 1960. “As aulas aconteciam na minha casa e eram ministradas pelo maestro Ferry. Fizemos apresentações em vários recitais de ópera em várias cidades”. Em 1980, incansável, fundou a Orquestra de Câmara de Araraquara, com violinos, violas, violoncelos, contrabaixo e piano. “Em 1997, a Orquestra de Câmara passou a fazer parte da Uniara.”
Edna conta que o Reitor da Uniara, Luiz Felipe Cabral Mauro, foi um de seus alunos de violino. “Não seguiu por falta de vocação, mas sempre me abriu as portas para que a música entrasse. Primeiro foi no Ginásio São Bento. Depois na FEFIARA e por fim na UNIARA”. Em 2000 a violonista formou a Banda Uniara, com 45 jovens. No ano seguinte, criou a Orquestra Filarmônica Experimental da Uniara. Já em 2002 formou o Conjunto Instrumental Feminino Uniara, composto somente por mulheres. “Interpretamos músicas populares e internacionais.” No ano de 1995, em parceria com a Fundart (Fundação de Arte Cultura do Município de Araraquara), Edna apresentou juntamente com o coral ‘Prof. Lysanias de Oliveira Campos’ o Concerto Sinfônico da ópera, de autoria do compositor araraquarense maestro José Tescari, intitulada ‘O sacrifício de Abraão’.

Família

Edna Nogueira de Moraes Silveira é filha de José Teodoro e Vitalina. De seu casamento com o saudoso João nasceram: Luiz Carlos, José Eduardo e Cecília. Tem sete netos e duas bisnetas. Dois netos seguiram o caminho da música, a advogada Mariana e o psicólogo Ricardo, ambos violonistas.
Ela conta com orgulho de seus prêmios, como o diploma ‘Parceiros da Cultura’, por sua atuação no desenvolvimento de ações culturais e essenciais ao Estado de São Paulo. Também recebeu das mãos do ex-secretário municipal de Cultura, o diploma no dia da Confraternização Latino Americana em 2004. Recebeu da Câmara Municipal de Araraquara em 2003, o título de Cidadã Benemérita pela difusão da arte na comunidade.

Ser mãe

Para Edna Nogueira, mãe é como uma orquestra, se o regente não for bom, a família perece. É como uma orquestra bem afinada. A mãe tem que ser dona de casa, educar muito bem os filhos e colocálos numa profissão. Como eu sempre digo: se der um instrumento na mão de uma criança, esta não se desvia, por exemplo, para a droga. “Graças a Deus que as escolas estão com música no currículo”, diz aliviada elogiando também o Projeto Guri, que dá acesso musical aos mais carentes. Edna ainda continua bordando e crochetando para ajudar entidades assistenciais. São cachepôs, porta niquéis, marcadores de livros. Tudo de crochê. Para ela, o violino é a sua vida. “A vida inteira só toquei violino”.

Edna, a valsa

Edna Nogueira se diz emocionada com a valsa intitulada “Edna’ feita pelo compositor e grande poeta João Stromayer, a quem ela ensinou violino. Embora Edna tenha relutado, a valsa foi instrumentada para grande orquestra. Vai ser a música de homenagem aos seus 90 anos. “A música ficou belíssima”, diz feliz. Edna te conheci no concerto musical que a platéia a aplaudia uma valsa de Strauss. Amei ao me aproximar de ti. Foi grande a minha emoção De aprender tocar violino que é a minha paixão Com amor e carinho escrevi essa canção Saiu esta valsa bonita do fundo do coração Mas vai ficar saudade Aos alunos que você tão bem ensinou Deixando essas lembranças Do tempo que já passou Edna, a professora querida Muitos alunos passaram por ela.


(Publicado em 8 de maio de 2010)

Foto~João Ferraz


Beto Caloni: Meu dom natural é a palavra

"Nunca tive maiores ambições. Entro em qualquer lugar.
Quem não gosta de mim deve ter problema na vida”


Dar uma entrevista, eu? Perguntou surpreso José Roberto Caloni, ou melhor, Beto Caloni, quando a reportagem ligou pedindo para que participasse da coluna “ Você faz a História. É que, talvez, esse jornalista nascido em 4 de janeiro de 1951, na Vila Xavier, desconheça a importância de alguém que por algum motivo ou feito se torne parte da vida das pessoas. E Caloni conseguiu esse feito quando compôs Flanando no Boulevard, música que fala de Araraquara e seus costumes em 36 versos abordados com muito bom humor. Gravada pelo próprio Caloni, a música ganhou ainda mais força quando o jornalista José Carlos Madalena começou a tocá-la em seu programa. Foi feito um clipe. Alguém jogou no You Tube que já contabiliza milhares de acessos. Tudo conspirou para que a música acontecesse: mais de 22 sites de distribuição, pirataria, além da chamada propaganda viral, com gente de fora deixando comentários emocionados, no You Tube, com saudades da terrinha natal, agradecendo a oportunidade de ‘rever’ na composição ou sambinha de letra inteligente com arranjos de Carrapicho e Fabiano. Cantou, pois os outros cantores ficaram temerosos com a reação do povo. Esse sucesso todo que praticamente virou um fenômeno de mídia, há mais ou menos um ano e meio, foi uma grata surpresa para Caloni, pois a primeira música que gravou. Nunca havia cantado em público. “Acho que ninguém havia brincado com Araraquara. Ninguém pagou um mico do jeito que paguei. Foi uma comoção. Pessoas me procuraram e me param na rua até hoje. Mas o que me deixou mais emocionado com isso tudo foi que as pessoas me agradeciam, como se eu tivesse feito a música para cada uma das pessoas de Araraquara que encontrei”. Para ele o ‘muito obrigado’ teve um sabor diferente. “Isso que foi fantástico”.

A primeira pauta a gente nunca esquece

Caloni conta que a música é algo recente em sua vida. Aprendeu a tocar violão sozinho, na adolescência, no início dos anos 70 com aqueles livrinhos com músicas cifradas. Mas a musicalidade presente em sua vida é herança de família, pois seu saudoso pai cantava muito. “Acredito que se alguém tem talento para a música é fundamental que os pais cantem perto da criança. Tenho uma formação musical intuitiva. Aprendi tocar violão sozinho e piano recentemente. Comecei a compor agora, depois dos 40 anos de idade, mas meu dom natural é a palavra. É escrever. Desde novinho, vi que eu tinha muita facilidade para escrever”. E foi essa facilidade para escrever que o levou ao jornalismo. Guarda a data em que começou no jornalismo: dia 10 de setembro de 1978, no Diário, na época do Roberto Barbieri (seis meses antes do mesmo falecer). A primeira pauta entrevistar o Cônego Cavalini, que estava assumindo como provedor na Santa Casa. Na segunda pauta, a constatação do que estava escrito nas estrelas: ser jornalista. “No dia seguinte, a pauta era para procurar uma senhora perto do Quitandinha cujo marido, que era motorista de caminhão, havia desaparecido.Voltei ao jornal com as informações e não encontrei o Ivan Roberto. Sentei na máquina de escrever para ir adiantando a matéria, deixar meio pronto. No dia seguinte, o texto estava impresso. Ai não precisou mais nada…” A faculdade (FIAM, São Paulo) ele resolveu fazer depois de achar que o jornalismo praticado na cidade era anárquico e meio amador. “ Eu achava que o jornalismo poderia ser bem feito, pois sempre achei essa profissão bonita demais. “A faculdade me deu respaldo, pois acho que curso superior vale à pena para qualquer coisas. Acredito que a pessoa tinha que fazer um curso superior para viver e não para trabalhar. Sou a favor do diploma, se não de jornalismo, que seja um outro, se não, não, pois se você é formado não pode alegar ignorância, principalmente a questão da deontologia, pois tem gente que não tem noção nem do que é ética”. Química geral Caloni trabalhou em todas as áreas possíveis da comunicação, da TV à publicidade. E o fato de ter trabalhado em muitas áreas faz com que muitas vezes veja o jornalismo como química geral misturando arte e jornalismo.
O jornalista também é um apaixonado pela história da cidade. “Fiz uma opção. Achava que se eu quisesse continuar uma pesquisa como intelectual tinha que optar por alguma coisa. Notava que todo mundo pegava uns temas muito esquisitos como ‘cinema alemão nos anos 20’. Não. Eu tinha que estudar a minha terra. Meu chão. Então desde 86 que comecei a pesquisar. Fiquei muito amigo do professor Rodolpho Telarolli (falecido) e optei por isso. Mas é um hobby. Talvez eu tenha sido o primeiro a falar sobre o livro Macunaíma, como foi escrito; sobre o sitio arqueológico. Curioso é que depois começaram a escrever e eu não fui citado nem como fonte”. Indagado sobre algo que o tenha marcado, o jornalista conta que prestava serviços a uma escola de surdos mudos. “Doaram à entidade instrumentos musicais. Mas eram crianças surdas mudas. Descobrimos que era possível que tocassem”. Assim foi montada uma fanfarra com 40 crianças surdas- mudas que chegou a viajar por várias cidades. “Ninguém sabia que eles eram surdos mudos. Tocavam, mas só o ritmo. Isso foi uma coisa importante demais que eu fiz. Mas também só hein!”

Apoio para o vídeo

Além da mãe, Caloni tem mais três irmãs. Assim seu contato com o universo foi intenso, como encontrar bobes de cabelo dentro do violão. Mas o casamento não foi para ele que casou, mas descasou. Hoje, está terminando o seu livro, romance que se passa em Araraquara no início dos anos 30 e que deve se chamar “Norte Sensato”. Fala da quebra da cafeicultura. O jornalista também ministra cursos de roteiro de cinema e TV, além de participar de produções culturais, sempre com o intuito de que tenham alguma finalidade. Também está trabalhando num vídeo e livro sobre o professor Telarolli. “Estou precisando de apoio para terminar o vídeo. Temos a idéia de fazer uma grande festa em agosto com músicos, reunindo muita gente. A festa deve se chamar Conclave de Sol”. Também está nos planos escrever o programa Ponto G, na Net, além de um trabalho ligado à terceira cidade, entre outros projetos. Cara briguento Conhecido como briguento, Caloni, diz que isto é um lance de coerência, pois fica indignado diante de certas coisas, mas gostaria também de ser conhecido pelo outro lado, pois quando reconhece alguma coisa de verdade é bastante generoso, valoriza e se empenha. “O que não gosto de ver é maracutaia, coisa mal feita e não que eu seja briguento, é que eu tenho mania de falar o que é verdade. Então, se tiver que falar eu falo mesmo, mas procuro não pisar na bola. Tenho um senso ético bastante apurado. Não me meto na vida dos outros e quando tenho que brigar falo o que falo mesmo, mas por outro lado quando tenho que defender, quando vejo uma injustiça, quando tenho que ajudar alguém procuro fazer isso de uma forma bem generosa”. Ele afirma que é uma pessoa que gostaria de ser reconhecida pelo seu trabalho. Só por isso. “Não precisa gostar de mim, desde que gostem do que eu faço. Tenho muita dificuldade em lidar com as pessoas, com o ser humano. Isso na medicina deve ter um nome bonito e na psicologia deve ter um nome alemão incrível para esse tipo de comportamento. Tenho mania de perfeição. Adoro desafios e acredito que tenho uma capacidade intelectual um pouco acima, pois dou conta de fazer tudo o que quero. Não tenho modéstia. Não tenho vocação para celebridade: quem compõe e escreve roteiro geralmente não aparece, escritor dá para contar nos dedos os conhecidos. Nunca tive maiores ambições. Entro em qualquer lugar. Quem não gosta de mim deve problema na vida, pois não procuro prejudicar ninguém. Imagino que sou coerente. Podem me acusar de tudo. Até dizer que sou arrogante, mas injusto e ingrato não sou não”. Araraquara para ele se divide em duas parte: cidade e população. “O meu caso é com a cidade”.
Ao término da entrevista, Beto Caloni fica meio que preocupado com as fotos e recomenda ao fotógrafo João Ferraz que capriche na utilização do photoshop, desconhecendo, talvez, que a beleza está em ser exatamente como ele : uma pessoa de verdade.








(Publicado em 30 de matço de 2009)




Foto-João Ferraz
FAITO comunista sim senhor!


Este fantástico homem sempre esteve à frente de seu tempo e nunca teve medo de colocar suas idéias em prática




A oficina Faito, à primeira vista, parece uma oficina qualquer. Mas não é. Ali, segundo Benê (Benedito Salvador Carlos), amigo e freqüentador, é um lugar onde o tempo não passou nos últimos 30 anos. “Olhando o lugar você nem pode imaginar quanta história, quanta tradição, quantos sonhos e de quantas pessoas importantes ali continuam passando, como se o tempo não passasse”, conta emocionado. Benê diz que o mecânico Raphael Luccas Martinez , o Faito, sempre foi uma pessoa diferenciada, à frente de seu tempo. Pessoa humilde, estudada somente pela escola da vida. Faito foi para São Paulo aos 18 anos. Ficou por lá durante dez anos e trabalhou na fábrica de um francês que produzia cruzetas de cardans. Ali começou a nascer o grande mecânico especialista em torno. “Aprendi tudo que sei sozinho”, diz Faito, que retornou a Araraquara quando tinha 28 anos. “Abri uma oficina em parceria com meu irmão, mas depois de um conselho decidi seguir sozinho. Deu certo. A Oficina Faito está completando 50 anos.” Faito teve como companheira Lurdes, ou Lurdoca como chamava carinhosamente a esposa falecida há três anos. O casal teve 15 filhos. Os meninos aprenderam mecânica com o pai. Hoje lá trabalham José Lucas (Zé), Diogo, Celso (Baiano). “Meu pai sempre foi bom demais. Bravo somente quando a gente passava dos limites”, conta Diogo, um dos filhos. O mecânico conta que Lurdes não queria se casar com ele. Por isso a união somente foi oficializada quando o casal já tinha sete filhos, pois a mãe do Faito tinha falecido e tinham que acertar os papéis, pois ninguém era registrado. Já o amigo Benê acrescenta que dois dos filhos do casal receberam o nome de batismo de “Jânio e Eloá”, em homenagem ao seu presidente e ídolo. “Os filhos sempre foram trabalhadores e de grande sucesso no meio esportivo de nossa cidade, seja no esporte a motor, onde brilharam nas fileiras do moto-clube de Araraquara, na natação, onde se fazem presentes na história até hoje”, destaca.

Grandes feitos



Benê conta que Faito sempre foi um torneiro mecânico diferenciado, genial, que construía coisas e objetos, otimizava empreendimentos, criava, inventava, dava vazão a um conhecimento científico, descoberto apenas e tão somente por sua curiosidade e seus próprios experimentos. “Ele foi um mestre para uma gama de novos profissionais formados em Araraquara e região. Com seu talento, foi uma pessoa que participou ativamente em experiências indescritíveis, algumas delas, com o cientista Dr. Frederico Di Marco, outro gênio, trabalhou no projeto de precipitação de ‘chuvas artificiais’.” Benê lembra que Faito, De Marco e Edmundo Lupo, dono de uma aeronave, desenvolveram técnicas próprias, que nas épocas de estiagem em Araraquara resolviam os problemas da falta de água, hoje comumente utilizado nas plantações de hortifrutis, especialmente de maçã. “É dele também, sempre em parceria com o cientista, face à sua extraordinária habilidade como torneiro, o desenvolvimento de várias “ferramentas”, inclusive uma em especial para cirurgias de cérebro humano. A idéia básica da descoberta, impensável para qualquer comum na época, coisa de 50/60 anos atrás, foi destampar a cabeça do paciente, através do instrumento por ambos desenvolvido, e então cirurgicamente utilizado pelo médico, descomprimindo a região afetada e com isso libertando o paciente de sua enfermidade.” Faito ao ouvir o nome de Frederico de Marco diz que ele era bom médico e amigo do povo. “Um grande araraquarense”. Um homem de princípios Faito conta orgulhoso que nasceu a caminho da Rua Américo Brasiliense. Em 3 de março de 1917. Era um tempo em que ainda havia tropas de cavalos, bois, porcos. Como havia a Estrada de Ferro, o saudoso Saturno avisava através do serviço de alto falante que as tropas vinham chegando. O mecânico já esteve sete meses preso por matar um homem em legítima defesa, mas sua dignidade, valores e princípios sempre falaram mais alto, e a confiança no homem que desenhava, construía e até modificava peças prontas nunca foi abalada. Tanto que anos depois do ocorrido, o amigo Flávio Ferraz de Carvalho, que era parente próximo do rapaz morto, disse a ele que não lhe guardava mágoa. Hoje, Faito, com alguns problemas de saúde já não trabalha, mas sua paixão pela mecânica resiste. Tanto que passa grande parte de seu tempo na oficina que construiu com suas próprias mãos. Os olhos claros que devem ter provocado muitos suspiros estão mais sonhadores. O corpo, já não tão ágil precisa, às vezes, de amparo. Mas esse homem que se fez sozinho, construiu e consertou coisas tão fantásticas atropelando a ignorância de seu tempo faz parte da nossa história. Ocupa um lugar de honra no pódio daqueles que não vieram a esse mundo a passeio e mostra a razão de ser um comunista de carteirinha: ser um homem à frente de seu tempo! Faito foi o fundador do Estrela Futebol Clube, que nem sempre teve esse nome. Era Estrela Vermelha Futebol Clube, mas por conta da perseguição aos comunistas teve que modificar o nome. Ainda com muito fôlego político, aos 92 anos, o mecânico manda seu recado acrescentando que a cidade não vai pra frente pois os vereadores e a maioria dos prefeitos que entraram ai é tudo “vagabundo”, nenhum funciona. O vereador tem que ser um soldado da cidade”, orienta o homem que, segundo Benê, sempre foi engajado em suas convicções políticas, que a vida inteira foi de “centro-esquerda”, convicto, sempre acreditou que socialismo era o melhor. “Eu queria ser prefeito! Só não fui porque não aceitavam minha candidatura. Era comunista”, diz ele rindo gostosamente. O mecânico revela que desde moleque o comunismo o encantava. “Nasci praticamente dentro do partido comunista que já foi bom, mas hoje não é mais. Tive até carteirinha”. Paradoxalmente, segundo Benê, a mesma pessoa que acreditava cegamente no socialismo, foi um empreendedor nato, pois fora patrão a vida toda, em uma atividade que sustenta até hoje todos os seus. “Como proprietário de empresa metalúrgica, democraticamente e porque acreditava que mudanças eram necessárias, recebeu em sua oficina aqui em Araraquara, nos anos 80, o promissor líder sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva e o ajudou em principiar nesta terra, sua campanha de conscientização de dias melhores para a classe operaria”. Seu conhecimento, de acordo com Benê, como torneiro mecânico, transcendia, e foi de grande valia para o então jovem eleito prefeito Rômulo Lupo, que além de conhecimentos acadêmicos avançados e experiências em países desenvolvidos da Europa, trouxe para nossa Araraquara em suas gestões o elementar, porém essencial para a saúde pública, o “saneamento básico”, que consistia em água encanada e calçamento público. Faito, com seu conhecimento, com seu desprendimento e suas habilidades foi figura marcante na criação do sistema de tubulações e galerias, em uma época de inexistência do hoje contemplado “DAAE”. O filho Diogo conta que, ainda menino, lembra que o pai muitas vezes estava assistindo a um filme com sua mãe e o lanterninha Chico Mariano parava o filme, a mando do prefeito. Acendia as luzes, procurava por meu pai e quando o encontrava dizia que o prefeito o estava chamando, pois havia estourado um encanamento”. Faito conta que Rômulo Lupo foi seu amigo de infância. “Foi o melhor prefeito. Ele gostava da cidade. Nasceu aqui, nas duas vezes em que se candidatou ganhou. Eh, italiano véio!”, diz cheio de alegria. No caso dos tróleibus, quando o governo municipal decidiu estender o trajeto até o campus, os novos veículos haviam sido adquiridos de Porto Alegre como sucata por conta de um problema numa peça denominada chave de vácuo. Faito ficou durante três meses estudando a forma daquilo funcionar. Tudo havia sido experimentado, até que… eureka!, ao escovar os dentes percebeu que a pasta seria a solução. Quando o técnico veio do Rio de Janeiro para testar a tal ampola verificou que a capacidade exata de energia para que a mesma passasse para a outra linha estava correta e melhor, funcionando.
(Publicado em 8 de agosto de 2009)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011



Genê Catanozi: um homem de qualidade!

Se pudéssemos ter uma visão do que vai no íntimo de cada pessoa, quando encontrássemos Genê Catanozi veríamos que dentro dele abunda uma coisa que está se tornando cada vez mais rara nos dias de hoje: humanidade. É um homem que carrega em sua genética a força da solidariedade e um coração genuinamente bom, não só no sentido de saudável, mas valoroso. Um coração de leão!
Genê é filho dos saudosos Abílio Catanozi e Aparecida Martim Catanozi, ambos nascidos em Descalvado, e irmão de Orlando, Neide e Zuleide. É casado com Maria da Penha Longo Mortatti, a Penha, parceira de todas as horas.
O menino nascido em São Paulo no dia 14 de novembro de 1956 cresceu no bairro da Mooca onde, por conta da grande quantidade de cavalos, pegou uma engraçada doença, o mijacão (bolhas formadas debaixo dos pés por conta do contato da urina do cavalo sobre a pele).
Na escola, o sobrenome Catanozi rendeu muitas brincadeiras e zoação, pois era chamado de ‘Catavelã’, ‘Cataminhoca’ e tantas outras versões, mas nunca dramatizou e até achava graça.
Quando menino Genê passou por um grande percalço, pois aos sete anos perdeu a visão, o que exigiu muita peregrinação de sua mãe até o Hospital das Clínicas para tentar reverter a situação.
Ele se lembra, não sem dor, que já sentia a rejeição de seu pai por vê-lo cego. Mas nesse pouco mais de um ano em que perdeu a visão, Genê conta que desenvolveu muito a audição. E essa deficiência, mesmo que temporária, lhe deu uma outra percepção do mundo, o fazendo experimentar sensações restritas aos deficientes. “Engraçado que nesse tempo achei que fiquei melhor do que quando enxergava, até que aos poucos fui recuperando a visão. Embora meu pai não aceitasse, eu aceitava e passei esse tempo de maneira tranquila, sem rebeldias”.
Mas ele também sabe que foi naquele momento de aflição, não de sua parte, o que é se tornar um sobrevivente. Carrega essa lição na bagagem e quando se depara com alguém que precisa de ajuda não se faz de rogado.
Genê Catanozi é graduado em Administração pela universidade São Judas Tadeu, pós-graduado em Gestão de Qualidade e inovação de Produtos pela Faculdade Mackenzie e mestre em Administração pela UNIFACEF.
Possui grande experiência na implantação do PQG, Programa de Qualidade Geral. É professor e palestrante na área de Gestão da Qualidade e de Pessoas.

Negócio de família

Genê se lembra com saudade da horta cultivada pelos avós italianos, Antonio Martim e Adalgisa, principalmente do avô que tinha idéias anarquistas e achava que tinha que trabalhar, mas também dividir a terra com todo mundo que havia vindo com ele lá da Itália, mas que ao chegar ao fim da vida teve que ser sustentado pelo filho, pois já havia distribuído tudo o que tinha. “Tudo que produziam era doado para as pessoas que por lá apareciam pedindo”.
Também se lembra de sua mãe, que também possuía o mesmo espírito desapegado de seus pais. Tanto que depois que perdeu uma das pernas não podia ver nas ruas pessoas que havia perdido um braço ou uma perna que queria ajudá-las a colocar um braço ou perna mecânica. “Depois que meus pais morreram é que a gente veio a saber de tantas pessoas que eles haviam ajudado”.
Os negócios da família de Genê eram voltados para rede de postos da BR Petrobras e foi por esse motivo que em 1990 ele veio para Araraquara, ou seja, para a implantação e administração de um novo posto, o Petro Sol. Genê lançou na cidade o Papai Noel Azul. “Surgiu quando a Petrobras estava lançando a gasolina azul e souberam da aplicação da gestão da qualidade em Araraquara e foi pela cidade que iniciaram o projeto. Fizemos reuniões com os funcionários do posto e acabou surgindo a idéia do lançamento da gasolina azul através de um papai Noel vestido de azul”, conta ele.
A repercussão foi muito grande a ponto de Genê ser convidado para muitas palestras. “Na época, as pessoas, por conta dessa loucura toda, me olhavam diferente, pois não entendiam essa coisa da criatividade. Naa época a Dona Cecília, então diretora do jornal O Imparcial, me apoiava muito e me incentivava a ir em frente me dizendo que eu estava quebrando paradigmas. Tenho uma gratidão imensa por ela. Foi no jornal O Imparcial que também recebi incentivo para escrever. Com isso fui colaborador de vários outros jornais”.
O projeto Papai Noel teve bons frutos como o livro escrito por Genê intitulado “PQG-Programa de Qualidade Geral”. A obra, lançada em 2006, explica que o PQG é voltado para o talento humano, oferecendo subsídios para treinamento, melhoria do atendimento e do clima organizacional tanto na área pública quanto na privada, propiciando a busca da excelência e certificação ISO.
O livro foi amplamente divulgado nas faculdades a ponto de Genê ser convidado para participar de programas e ministrar aulas em várias faculdades como a de Monte Alto, a Faculdade de Administração e Negócios e PUC de Campinas.
Genê também credita ao livro o convite para assumir a pasta da secretaria de Meio Ambiente no governo de Marcelo Barbieri.
Ali na secretaria ele também anda de mãos dadas com o bem, pois entende que o meio ambiente não diz respeito somente a área verde, a mananciais, mas principalmente ao ser humano que está inserido no contexto de determinada situação. Tanto que a injustiça o faz sair de cima do muro. “Não consigo aceitar a pessoas massacrarem outras por qualquer motivo. Acredito que sempre tem que haver um diálogo antes para saber o que está acontecendo, além disso, as pessoas merecem afetividade e não porrada de uma forma geral. Os valores estão mudados, meu pai sempre dizia que nem tudo o que reluz é ouro, por isso devemos ficar esperto com que o que chega em nossas mãos, pois nem sempre é o que parece ser”.

Lélia Abramo

Quando se casou com Penha, Catanozi desconhecia que a grande artista Lélia Abramo, falecida em 2004,era tia de sua esposa. “O que eu mais gostava, quando eu ia para São Paulo ou ela vinha para Araraquara, era de passar de 4 a 6 horas ouvindo ela falar sobre filosofia”.
Quando Genê precisava ficar na casa da artista por conta de algum curso que estivesse fazendo, não era surpresa para ele Lélia ir em busca de ajuda para alguma criança carente, pois havia ouvido no rádio que a mesma estava precisando de vaga num hospital e não conseguia. “Ela me dizia: Genê me leva em tal lugar. Então, aprendi muito isso de correr atrás e ver que ela se preocupava com as pessoas mais humildes. Essa preocupação existente na Lélia era uma coisa que me chamava muito a atenção e isso era uma coisa que ela não fazia questão de divulgar. Fazia e pronto. Como ela era uma militante política eu não entrava nessa militância e ficava fora, mas dessas histórias de humanidade, das que ela contava em relação a Segunda Guerra Mundial, quando ela estava na Itália e teve oportunidade de salvar cerca de 300 crianças de um bombardeio e das vezes em que ela fornecia ou dividia seu pão e azeitonas com as crianças e não eram raras as vezes que ficava sem comer. Isso me mostrava que não dá para a gente se desvencilhar desse lado humanístico e esse equilíbrio ela me passava”.

 (Publicado em 23 de agosto de 2010)


Vera Botta, a mulher que carimbava estrelas


A filha de Edith Silveira Botta e Alfredo Botta sempre foi uma apaixonada por política, tanto que seguia nos ombros do pai, que deixou seu nome vinculado a Casa Barbieri, onde trabalhou por 40 anos, ouvir os discursos de políticos como Pereira L., que aconteciam na cidade na época de sua infância. “Chegava a chorar de tanta emoção”, conta ela.
Tudo isso foi construindo a identidade da menina que mais tarde viria a se tornar uma das mulheres mais atuantes da cidade. Tanto que chegou a ser presidente do Partido dos Trabalhadores, tendo sido eleita vereadora pelo PT por duas vezes em Araraquara, sendo autora de várias leis municipais, relevantes, diga-se de passagem.
Vera passou por escolas como Pedro José Neto, EEBA, mas de espírito inquieto queria algo desafiante que pudesse ajudar a fazer alguma transformação. Assim o caminho foi cursar Ciências Sociais. “Faço parte da primeira turma de Ciências Sociais da Unesp”, diz. Ela começou a dar aulas de sociologia na universidade com 22 anos e na sala de aula tinha alunos muito mais velhos do que ela. “Dava medo, mas eu era jovem e idealista. Foi uma prova de fogo”, diz rindo a mulher que aos 29 anos já era doutora na área.
Mas não são somente de alegrias as recordações, pois nos anos de chumbo (ditadura militar) viu vários colegas serem aprisionados e desaparecerem, professores serem ‘aposentados’.

Mão na massa

Vera Botta sempre foi uma pessoa consciente do que quer. A vida política sempre foi bastante intensa e pautada na ética. Quando se filiou ao PT em 1982 ajudou na construção do partido na cidade. “Para mim o partido simbolizava a mudança. Eu e um grupo recortávamos estrelas de espuma e fazíamos com elas uma espécie de carimbo que mergulhávamos em tinta vermelha. A cidade amanhecia com o chão forrado de estrelas. Tínhamos muitos sonhos de transformações”.
Quando aconteceu toda aquela problemática no partido, Vera optou por ficar, pois acredita que não se deve fugir dos problemas quando eles surgem e sim enfrentálos. Para ela, o partido teve muitas vitórias em sua trajetória.
Foi uma vereadora bastante briguenta, defendendo os seus projetos que garantiriam direitos à população.
Vera não chegou ao mestrado e doutorado na Unesp por acaso. Chegou a livre-docente e foi professora titular.
Só para citar, pois seu currículo é extenso, sempre esteve envolvida em pesquisas e inclusive tem vários trabalhos publicados sobre assentamentos rurais, movimentos sociais, políticas de enfrentamento à inclusão social, redes de cooperação, segurança alimentar, programas municipais e pequenos produtores.
Vera significa muito na vida de muitas pessoas, tanto que o título de Cidadã Benemérita, de autoria de Márcia Lia, que recebeu não foi apenas de fachada. Ela literalmente coloca a mão na massa. É professora de colocar o pé na terra, abraçar o ser humano em toda a sua essência, seja este de que classe for, pois acredita que é fundamental acompanhar o modo de vida das pessoas que aparecem, principalmente em suas pesquisas.

Simplesmente Vera Botta

Atualmente Vera Botta é coordenadora de Mestrado, faz parte da executiva do PT e é pesquisadora do CNPq.
Tem na única irmã, Sueli, a sua companheira-mor que junto com o filho Gustavo Botta, 38, são as relações mais preciosas de sua vida. “Temos uma relação bonita, de almas, pois sem uma relação de cumplicidade nada vira”.
Vera se diz uma mulher sem fronteiras e é contra qualquer discriminação. “Gosto de reinventar a vida”, confessa.
Ela conta que ainda tem uma saudade gostosa da infância, de suas férias passadas em Matão em meio a jabuticabeiras e pitangueiras, de sua mãe e de seu pai, ao qual era muito ligada. “Não tenho arrependimentos. Eu faço. Enfrento”, diz cheia de si essa ariana nascida no dia 25 de março de 1945.
Vera também foi agraciada com o Título de Cidadã Benemérita, o que, lógico, a deixou ainda mais honrada, pois antes desse título, em 2009, havia sido convidada para fazer parte da Academia Brasileira de Ciências Políticas e Sociais Nacional. Só para se ter uma idéia o convite é feito a partir de uma seleção de currículos baseado em critérios acadêmicos, o que para ela foi uma grata surpresa.
Vera é uma pessoa que fez de sua trajetória acadêmica não uma torre de marfim, mas que tentou levar o conhecimento para a população, para os segmentos mais carentes e servir à cidade sempre com muita alegria.
Vera que já morou fora em locais como México e França se declara uma apaixonada por Araraquara, não troca a cidade por nenhum outro lugar do mundo. “É bom sentir reconhecimento”, diz orgulhosa se lembrando de um dos discursos que o filho assumidamente corintiano fez a ela em alusão ao centenário do timão. “Ele (filho) é a luzinha de minha vida”.
Vera Botta acha que um de seus ‘papéis’ mais importante é ser mãe do Gustavo.
Ela adora mexer em plantas, cozinhar. É uma pessoa tão importante que se dá ao luxo de ser extremamente simples, uma pessoa cujos alguns valores são mais importantes do que qualquer outra coisa que poderia ganhar na vida, como por exemplo, ser mãe de seu filho Gustavo é mais importante do que ganhar qualquer eleição, do que ter qualquer posto público ou receber todos os títulos da vida.

Viver cada pedacinho da vida

Vera teve duas grandes perdas de parceiros, o seu primeiro marido, o músico Paulo e seu segundo companheiro Jean Marie. Ela conta que trabalhou as perdas, primeiro fazendo tudo que poderia ter feito pelas pessoas quando estavam vivas. “Não tenho sensações do tipo ‘’ai se eu tivesse feito’, e tenho certeza que tanto pelo Paulo quanto pelo Jean Marie foram feitas coisas que poderiam ter sido feitas em vida. “Tenho recordações boas. O luto tem sempre que ser vivido, mas também acho que a vida continua. Não sou uma pessoa que considera a perda como uma morte emocional. Reajo buscando as coisas que gosto como música, jogar baralho, ler, escrever”.
Vera deixa claro que quer viver cada pedacinho da vida. “Quero ser avó, continuar vendo meus alunos se formando, continuar trabalhando pela minha cidade, continuar sendo uma petista que dá trabalho, quero continuar tendo uma cabeça bastante privilegiada que me faz encarar a idade não pelas rugas que ela traz, mas pelas experiências e pelas marcas que ela tem”, diz a inquieta e irreverente professora que ainda tem muita coisa para fazer, “inclusive ver a primeira mulher presidente do Brasil”.
(Publicado em 30 de agosto de 2010)

Ziza: “a minha vida é um constante aprendizado

O seu ar de garoto ‘malemolente’ não denuncia os 54 anos do araraquarense José Carlos Anselmo da Costa, mais conhecido como Ziza


Ele conta que nasceu no dia 18 de julho de 1956, na Vila Ferroviária, mas quando contava quatro anos, a família se mudou para a Rua Cândido Portinari, paralela à Alameda Paulista. Ganhou o apelido de Ziza ainda criança, pois jogava muito futebol na rua de sua casa que na época ainda não tinha asfalto. “Eu tinha uns oito anos e o apelido ficou.Tinha um jogador de futebol do Botafogo do Rio cujo apelido era Zizinho e passaram a me chamar de Ziza, pois achavam que eu me parecia com ele além disso tinha também um jogador no Guarani de apelido Ziza, o que reforçou o apelido”.
Para ele a época de infância foi boa, apesar de ter perdido o pai quando tinha quatro anos.Era um tempo de inocência onde só havia o brincar. A Alameda era praticamente despovoada nos anos 60 para 70 e ele viu todo o crescimento daquela região. Sua saudosa mãe, Zulmira, criou ele, o irmão João Carlos praticamente sozinha.
Ele lembra com alegria que estudou no Dorival Alves,onde as classes eram feitas de madeiras. “Parei no ginásio, pois naquela época eu não tinha sonhos, pois fui por um lado que não me deixava opção de escolha. Minha vida foi um grande aprendizado”.
Uma de suas paixões sempre foi a música. “Quem me fascinava e me fascina até hoje era James Brown, pois ele foi o pai, uma força fundamental na música.Foi um privilégio nascer numa época em que a música, tanto a nacional quanto a internacional, era praticamente tudo” diz acrescentando que os anos 70 foi uma década privilegiado. “A gente ouvia nas rádios, Beatles,Johnny Rivers, Pink Floyd, Nazaré, Barry White,Marvin Gaye”. Ele conta que diferente de hoje, antes não se ouvia durante 24 horas a mesma música. “Era uma infinidade de coisas para se ouvir e para você ter. Quando a gente ia às quartas-feiras na Academia, antes, eu e meus amigos nos reuníamos na Santa Cruz, onde acontecia a novena. Quando acabava a gente descia ‘tudo bonitinho’ para a Academia A do Samba. Ali a gente tirava uma ‘onda’, depois cada um ia para sua casa”.
Aliás foi nessa época que conheceu o Costa, promotor do Baile do Carmo. ” Me lembro também de um barzinho do lado do ‘Chicão’ chamado Bar Love. Ali também era um outro point onde a rapaziada se encontrava para ir para a ‘Academia’ ou ir para as chamadas brincadeiras dançantes. O interessante é que as pessoas abriam suas casas para jovens de praticamente todos os bairros da cidade, todo mundo se divertia e ninguém mexia em praticamente nada. Lembro que tinha festa na casa do Jaime, no Paulinho que morava na Sete e hoje trabalha na Ambev. Era algo estritamente familiar”.
A música também tem uma importância muito grande em sua vida, pois foi através dela que conheceu aos 16 anos, a esposa Fátima com quem tem três filhos: Flávia Domenica casada com Edval Motta , Vinicius José casado com a Cristiane Bonfim e Isabela Luiza que mora em Cabo Verde, na África e é casada com Adilson Monteiro. “Tenho três netos, o Caio Motta, Vinicius Bonfim e a Olívia.
Ziza diz que tem uma família muito boa e que está casado há 38 anos. “Minha esposa é o verdadeiro esteio da casa. Hoje, apesar de todos os percalços que passei ela sempre esteve do meu lado e a cada conquista que faço eu devo a minha família”.

Programa de rádio

Ele conta que nunca imaginou que a música que para ele é uma paixão fosse fazer com que desse um ‘salto’. “Hoje me deparo com essa situação e gosto muito, mas teve uma época em que me assustava”, diz se referindo ao fato de ser um dos apresentadores de um programa de rádio.
Mas o começo foi na Rádio Uniara através do programa ‘Soul Negro’ apresentado na época pelo Tadeu. Foi em 2001.”Pedi para o Tadeu se eu teria chance de tocar algumas músicas ‘black’.Ele aceitou. Assim, de imediato, a primeira vez que me deparei num estúdio e dei de cara com o microfone achei interessante. Fiquei lá durante três anos até o desaparecimento do programa que acabou por falta de espaço na grade de programação”. Depois de algum tempo surgiu a idéia de levar um demonstrativo de um novo programa para Vagner Luiz , da Brasil FM. “Na época eu trabalhava com o Kiga e o primeiro formato do programa era denominado ‘ Black Total’, comigo tocando flashback, o Vinicius, soul,rythm blues e o Kiga, o rap”.
O programa durou um ano com esse formato até que surgiu o ‘Mistura Fina’ onde toco as minhas músicas, com um novo formato. “Acontece aos sábados, ao vivo, e é baseado em música negra e é formado por Mauricio Moises, Iago Tavares, Vinicius José e eu”.

Pintor letrista

Ziza é pintor letrista e ele conta que a profissão surgiu em sua vida para sanar uma necessidade, pois a esposa estava grávida do terceiro filho. “Eu aprendi o serviço e no começo fazia o trabalho bruto ajudando o Marrom e o Jaiminho a pintar as placas de publicidade na Ferroviária. Até que o Jaiminho me deu um empurrão e disse que era hora de ele parar de dar leite para os meus filhos, pois todo dia tinha que levar alguma coisa para casa por conta da criançada. Foi ai que fui tomando gosto aliado à necessidade de cuidar da minha família. Ai virou profissão, de onde eu tiro meu sustento e lá se vão 25 anos. A gente conservou uma clientela muito boa”.
(Publicado em 20 de setembro de 2010)
FOTO- JOÃO FERRAZ

Corra que o Malaspina vem aí!


A autoridade deste homem é conhecida há longo tempo. A um gesto de suas mãos ou a apenas um olhar de advertência, os alunos na Escola Estadual Bento de Abreu, EEBA, saem em debandada. Entram até em sala errada, mas dispersam. E onde antes imperava algum burburinho, a ordem se instala. Mas se engana quem pensa que o ato é baseado em autoritarismo. Para o dono deste olhar de um límpido azul representa uma vitória conquistada ao longo de sua trajetória no magistério. Tanto que no dia 30 de setembro comemora 20 anos na direção do EEBA. O que o incentiva a continuar é que ali se pode produzir e melhorar cada vez mais a vida dos alunos, reverter quadros mal esboçados, educar, orientar, colocando certas situações nos eixos. “O EEBA para mim é a minha casa. Só falta a cama. É uma doença”, brinca ele, ao mesmo tempo preocupado com o futuro da escola, pois daqui a dois anos sai a sua aposentadoria (por idade). “Não penso na hora em que terei que parar, pois quando isso acontecer acho que vou morrer. A tristeza vai ser muito grande, preciso me preparar muito, mas muito mesmo”, diz ele fazendo uma pausa marcada pela emoção. “O choque vai ser… quando fala em aposentadoria até me arrepia. Tenho medo. Mas ao mesmo tempo acho que têm que entrar aqui no EEBA pessoas novas, com visões novas e que acompanhem essas mudanças. Mas a vontade de querer continuar é muito grande”. Empatia Muita, mas muita gente que passou pelo EEBA tem uma história para contar do Malaspina. Como aquela em que um aluno escreveu seu nome com um pincel atômico em todas as carteiras da escola, no pátio, nos corredores. Fez seu nome por assim dizer. Malaspina entrou na sala do tal aluno e perguntou quem era fulano de tal. Quando o mesmo respondeu, ele disse simplesmente que era para ele limpar tudo senão seria expulsão na segunda- feira. O rapaz passou o final de semana limpando seu nome. Não ficou nenhum vestígio. A história ficou. Hoje muitos professores chegam a ser desrespeitados pelos alunos, mas Malaspina explica que o aluno de hoje é um pouco estressante por que não tem muito limite nas suas conversas, nas suas atitudes. “Falar alto, sentar e jogar copo no chão. Tudo é normal. Quando o professor tem a percepção disso, a convivência fica mais fácil”. Mas ele revela que o que faz seu sucesso com os alunos é falar a mesma linguagem. “Você tem que ter envolvimento. Viver ao lado do aluno, pois a distância da idade, se você quiser você separa. Se você quiser passa a ser o pai, a mãe, o ídolo desse aluno, porque essa aproximação é importante, criar um vínculo”, diz. Ele acrescenta que tudo o que diz cumpre. “Não ameaço. Exijo na dose certa. E eles respeitam”. Quem o conhece percebe como é nítido que os alunos o têm como uma segurança. Malaspina os recebe na porta. Recolhe as carteirinhas de cada um, que são devolvidas na saída. Ao todo são 2.400 alunos na escola. Casado com a professora Lídia, com quem tem dois filhos, também professores: Ana Carolina, bióloga e professora da Uniesp e Igor, agrônomo e professor da ULBRA, em Rondônia. Para Malaspina, ver os filhos trilhando o mesmo caminho dele foi algo natural, pois todos os seus irmãos, além da mulher, são professores. Malaspina conta que traz do professor a mesma alegria em incentivar os alunos. “Digo que devem procurar se especializar, pois para ser igual aos outros você cai na mesmice. Hoje é a especialização. Mestrado. Doutorado. Procurar alguma coisa a mais, enfim ter uma conduta que te leve a ser melhor do que os outros. A busca por esta conquista está dentro de você”.

Como o EEBA entrou na minha vida
Depois de formado, Malaspina foi dar aula em São Paulo, no Colégio de Itaim Paulista. Lá ficou de 73 a 76. Em 77 veio para o EEBA. O trâmite para chegar até o EEBA foi o seguinte: sempre que passava pela Washington Luiz para ir a São Paulo havia um pedágio. Pensava: porque tenho que ir tão longe? Se tem uma cidade tão grande como Araraquara?” Em 1966 ou 67, talvez, ele conta que veio assistir um jogo do Santos. “O Pelé veio jogar na Fonte Luminosa. Tinha vindo com um amigo e essa pessoa, não sei porque motivo, teve que passar no EEBA e eu vi a escola. Fiquei encantado. Foi aquela história: coloquei na cabeça que um dia iria trabalhar no EEBA.” Quando veio participar da atribuição de aulas em 77, não deu outra. Pegou aulas na referida escola. Depois disso só ficou fora do EEBA de 80 a 84, quando morou em Americana. Mas depois retornou entrando para a direção da escola em 1989. Para Malaspina, o maior pecado é ser saudosista, pois cada época tem seu encanto. Ele ainda traz muito do menino que ia para a escola com os pés descalços, a exemplo da disciplina. Hoje não é mais a mesma pessoa de quando começou, pois enxerga melhor as coisas. Aprendeu a conviver com várias gerações. “Eu tenho amigos de 70, 80, mas tenho meus amiguinhos de quinta série. Sento com eles. Estão com o foninho de ouvido, pego, quero saber o que estão escutando, então sei que aquela geração gosta daquilo, e automaticamente tenho que gostar daquilo, mas tem aquela geração que gostou do Rolling Stones. Adoro músicas novas. Desconheço o que seja conflito de gerações. Esse contato que eu vivo, que me apaixona pelas pessoas, pela escola, pelo que eu faço, é tudo.” São tantas histórias nesses vinte anos de EEBA que daria para escrever um livro. Ele credita muito do seu sucesso, em especial aos professores Luiz Carlos Penteado, Dra. Inayá, Professor Gorla, Professor Marcelo e aos demais professores e funcionários. Com os professores o comportamento é de professor. “Não sou autoritário, não imponho nada para ninguém . Eu peço.”

De novo Pelé

Malaspina conta que além de seu pai Antonio, deve tudo ao professor e diretor da escola de Tabatinga, Dirceu Sgarbi. “Ele foi ao meu pai e disse a ele que nós não podíamos parar de estudar, pois tínhamos capacidade para seguir em frente. Ele era uma pessoa que cuidava das famílias, por que era um homem respeitado. Professor e diretor, era uma pessoa muita culta. “Tenho ele como um herói. Quando conclui o magistério ele foi novamente até o meu pai e disse que nós iríamos fazer faculdade. Naquela sala de magistério que eu sai em 1969 havia 22 alunos apenas. Era a seleção da cidade, sendo 4 de Nova Europa”. “O contato com esses colegas continua, tanto que em dezembro comemoramos 40 anos de turma. “Não deixo essas coisas se perderem. Entre os colegas há o Benedito Farto, diretor da escola de Nova Europa, Osmar, meu irmão, que é pesquisador-cientista e professor da Unesp de Rio Claro. Outros tantos espalhados por várias cidades, graças a esse diretor que nos encaminhou. Isso tudo com sacrifício”, conta ele sem se lamentar. Através do professor e diretor Sgarbi foram prestar vestibular em Bauru, e depois os ajudou a alugarem uma república. “Como um verdadeiro pai, o diretor foi até Bauru. Alugou a casa. Deixou tudo certo para a gente. Fiz ciências biológicas porque o professor Dirceu achava, na época dele, que a ciência iria ser o “boom” do mundo. Ele nos dizia que se fizéssemos ciências iríamos ter emprego. Todos fizemos biologia.” Malaspina disse que é difícil encontrar alguém como o professor Sgarbi, além de seu pai. Uma pessoa que te acolhe e encaminha. “Ele ia de casa em casa como um médico de família. O filho dele é um famoso cirurgião plástico”.

Menino de pés descalços

Osvaldo Carlos Malaspina, 58, nasceu em Tabatinga – SP. Morava numa colônia. A família descendente de italianos, a mãe Graziela Giansanti e o pai Antonio Malaspina. “A gente morava na roça e saia aquele bando de molecadinha. Um ia passando na casa do outro. Vínhamos de pé descalços, bornalzinho de pano, pois não tinha saquinho plástico para colocar os cadernos. Quando chovia o caderno ficava ‘inchado’ e a gente tomava bronca da professora.” Ele se lembra que os cadernos que eram levados para casa eram os de tarefa. “Quando a gente fazia tarefa à noite, ficava com o nariz preto por causa da lamparina. Nunca esqueço disso. Para tomar banho, de bacia, era preciso esquentar água na chaleira no fogão de lenha e bebíamos água de poço. Isso em 1959.” Em 1960 o pai Antônio não se desfez do sítio e compra uma casa na cidade. Os quatro meninos precisavam estudar. O pai não queria que os filhos se tornassem caipiras a vida inteira e os levou para estudar. “Só o mais velho dos irmãos, Odilo, apesar de morar na cidade, toma conta da roça até hoje.” Malaspina se recorda que Tabatinga ainda era cheia de estradas de terra, onde frequentemente carros, como os do padeiro, atolavam. Uma de suas mais queridas lembranças remete a um rádio comprado pelo tio José para ouvir os jogos da Copa do Mundo de 58. “A casa era de madeira. O chão de terra batida. E ele comprou um rádio que era do tamanho de um frigobar. Cortou um toco de eucalipto e pós o rádio em cima. A pilha para se ter uma idéia era do tamanho de uma bateria de caminhão. A sintonia do rádio era uma rodela imensa com barbante. Mas o aparelho não pegava bem. Pegava o início do jogo. Sumia. Depois pegava a metade do jogo e depois o fim. Jogava Brasil e Tchecoslováquia. Brasil e Hungria. Eu escutava falar dos times estrangeiros, mas sem saber o que era aquilo.” Mas o mais interessante da história era que ele, que sempre havia morado numa colônia italiana, nunca havia visto um negro. “A gente naquela época não vinha para a cidade. Falava no rádio de um tal de Pelé, fenômeno da época. Marcava muitos, muitos gols. A gente ouvia. Para nós o Pelé era branco como nós. Em 1959 entrei na escola e apareceu o Pelé na figurinha de bater bafo. Nunca tinha visto. Tivemos que trocar um saco de mexerica com a figurinha, pois meu pai não nos dava dinheiro, para mostrar para minha mãe, hoje com 90 anos, quem era e como era o nosso ídolo Pelé”. Tabatinga criou o magistério. O científico mais perto era o EEBA. “Sessenta e dois quilômetros de terra. Impossível de se frequentar. O magistério era a nossa chance. Aproveitamos”.


(Publicado nodia 30 de agosto de 2009)

Desisti do Big Brother e daí?

O que levou um homem bonito, charmoso e até com torcida organizada a abandonar a oportunidade de ficar nacionalmente famoso e desperdiçar a chance de ganhar um milhão de reais?


A notícia de que estava desistindo de um “reality show”, como o Big Brother, fez surgir inúmeras dúvidas na cabeça de milhões de brasileiros. E com essas dúvidas, críticas, muitas críticas: quem ousaria dar às costas para um programa onde se pode ganhar um milhão? Quem desperdiçaria uma galinha dos ovos de ouro? Um lunático? Um cara cheio de frescura? Um arrogante antipático? Um riquinho metido à besta? Essa ainda, depois de quase um ano e oito meses da oitava edição, é uma dúvida que muitos araraquarenses têm. Para relembrar a história, o administrador de empresas, Gregor Ferreira, 35, substituiria o professor de educação física Gustavo, que contraiu rubéola, mas pediu à produção do programa para se retirar da disputa. Essa decisão bastou para gerar todo tipo de polêmica em cima da vida do rapaz. Ele que é formado em administração de empresas pela Uniara, conta que é um araraquarense da gema e que sempre morou e estudou na cidade. Indagado sobre a fama de ser antipático, ressalta que isso deve ter surgido na época de Big Brother, quando algumas pessoas colocaram isso na mídia. Como ninguém é obrigado a depor contra si mesmo, o administrador explica que isso também se deve ao fato de ser uma pessoa um pouco mais reservada. “Por ser um pouco mais fechado, às vezes, pode parecer que eu seja um pouco antipático, mas tenho certeza que as pessoas que me conhecem, e convivem comigo pensam o contrário”, defende-se.

Cobrança

Com a desistência, Gregor conta que foi muito cobrado. No hotel, sem contato com o mundo externo, ele não fazia idéia do que estava acontecendo. Na hora que saiu sofreu um grande impacto. “Araraquara não é uma cidade tão grande. No início foi meio complicado. Inclusive, você é julgado por coisas que não existem.” Para se ter uma idéia, até a vida dos vizinhos é transformada. “O que é mais impressionante disso tudo é a velocidade da mídia, de informação e do que as pessoas ficam sabendo. O pessoal vai atrás até de seus vizinhos. Só Deus pode me julgar. Houve milhões de calúnias sobre a minha vida, a respeito do porquê da minha desistência”. Embora não se arrependa, ele até lamenta por ter de alguma forma decepcionado os amigos. “Todo mundo quer te ver na televisão.” Até que foi recorde de indisciplinas no Tiro de Guerra acabou sendo lembrado. Rindo, ele não nega o fato, mas adianta que como teve que ficar mais um tempo recebeu um título de honra ao mérito. Ele avalia que se tivesse ficado, claro que sua vida momentaneamente teria mudado. “Convites para festas e eventos. Valorizo as pessoas que saem do programa e dão continuidade, que têm potencial para isso e prossegue fazendo coisas boas. Não me arrependo de ter me exposto”, diz acrescentando que as pessoas que o criticam não o conhecem verdadeiramente. Nessa história toda o que mais o emocionou foram as pessoas humildes que encontrou em locais como supermercado e que fizeram questão de conhecê-lo e lhe dizer que queriam torcer por ele. “Isso me tocou, mas você lá dentro não sabe o que estão fazendo de mídia.” Ao final da entrevista passamos a achar que o jeito que parece arrogância é na verdade segurança e, afinal de contas, ser bonito não é pecado. Dar as costas para um Big Brother sim. Mas essa decisão não é para qualquer um. É para Gregor Ferreira.

A verdadeira história

Gregor conta que quando tudo aconteceu estava passando por um momento conturbado de sua
vida, principalmente o problema da doença de seu pai. Ele conta que a inscrição nem foi feita por ele. Tudo foi por intermédio de uma prima. “Bolou todo o negócio e eu somente coloquei no correio. Isto foi uma história até muito engraçada, pois um dia estava no escritório trabalhando e resolvi dar uma olhada no site e tinha a ficha de inscrição do Big Brother. Como um curioso qualquer resolvi dar uma olhada nas perguntas que faziam. Nesse momento minha prima me ligou. Perguntou o que eu estava fazendo. Sugeriu que eu imprimisse as perguntas. Ela assistia ao programa mais do que eu. Ela acabou me ajudando a responder algumas perguntas específicas do programa. Depois para montar o vídeo para a inscrição, ela me filmou em casa falando um pouco de mim. A única coisa que fiz foi colocar no correio. O vídeo ainda ficou esquecido em cima da mesa durante quase um mês antes de ser enviado.” Cadeira elétrica Em dezembro de 2007, o chamaram pela primeira vez. Foi para o Rio de Janeiro para uma série de entrevistas. “Acredito que me dei bem, porque se a pessoa quiser tentar o Big Brother não basta fazer um vídeo e escrever bonitinho no papel. A prova final desse pessoal, dessa produção e diretores do programa, como o Boninho, é no dia. O que chama de “cadeira elétrica”, pois nos bombardeiam com uma série interrupta de perguntas de vários tipos. Fotógrafos, câmera, enfim a Rede Globo em cima de você. Quem não está acostumado com isso acaba se intimidando. Acho que nesse momento é que a pessoa passa ou não passa.” Ele passou. Desencanado com a história de Big Brother, Gregor recebeu mais uma ligação da produção do programa. A definitiva. Ficou durante seis dias confinado num quarto do hotel Copacabana. Sem contato algum com o mundo externo, sem janelas. Sem esse contato com o mundo externo, Gregor teve tempo para refletir se era realmente isso que queria. “Lógico que dinheiro e fama todo mundo quer. Agora minha dúvida era se eu estava realmente disposto a ver a minha intimidade em rede nacional. Esta dúvida persistiu desde o segundo dia. Fiquei seis. Isso mais o problema na família. Acho que não era a hora certa para eu estar lá me expondo.” Pediu para sair. E foi atendido

Um pouco de Gregor

Hoje Gregor Ferreira gerencia alguns negócios de seu saudoso pai, Gumercindo Ferreira, no ramo de imóveis, além de ser sócio da empresa ABP Eventos, responsável pelas famosas festas da Boss Party. Filho de Helenice e do saudoso Gumercindo. Irmão de Greice e tio de Luca. Namorado da Daniela. A família para Gregor é base de tudo. Um porto seguro. “É onde você se estabiliza, onde você segue o caminho correto. Segurança. É tudo”, diz convicto. Praticante de boxe, frequenta a Academia Arara Azul e não está fora de cogitação participar futuramente de competições. A prima que o acompanha nessa entrevista brinca dizendo que uma das coisas que o moço mais gosta de fazer é “encher o saco”. Ele ri, negando e acrescenta que aprecia as coisas que a maioria das pessoas gostam que é passear, viajar, namorar, sair e convidar os amigos para a sua casa. “Sou bastante eclético”. Gregor é um dos responsáveis pela Boss Party, uma festa dividida em duas partes: a White que acontece em março e a Black em agosto, que está no quinto ano e que cresce a cada nova edição. É um evento onde as pessoas têm que ir de branco, e com isso movimenta o comércio da cidade, além de empregar quase uma centena de pessoas. “Esperamos trazer muitas novidades na festa dos cincos anos, que deve acontecer no início do próximo ano”.

Lição de vida

O saudoso pai de Gregor, Gumercindo Ferreira, sempre foi um herói para ele. “Até o final da minha vida, com certeza. Vou seguir os pensamentos dele”. A Chaban foi uma das maiores fábricas de Araraquara, mas acabou fechando. “Esse negócio da Chaban foi fantástico, fez muita coisa boa para Araraquara, além da Chaban, ele era delegado da Fiesp trazendo várias benfeitorias para a cidade, como o terreno para o Sesi. Ele sabia sempre a hora que teria que parar. “A fábrica era conhecida nacionalmente, tanto que o Paco Rabanne, famoso estilista, nos licenciou para fabricar as calças dele no Brasil.” O administrador explica que com a abertura da importação na época do Collor, os produtos subsidiados da China devastaram não só a Chaban, mas várias empresas como as da cidade de Americana (SP), por exemplo. “Então, acredito, que meu pai fez a coisa certa na hora certa fechando a fábrica. Não tínhamos como concorrer com esse pessoal”. Ele diz com imenso carinho que a maior lição que seu pai lhe deixou foi a honestidade. Quanto a Araraquara, Gregor diz que simplesmente adora a cidade. “É uma cidade fantástica e logisticamente falando muito interessante. Acredito muito neste novo governo com Marcelo e Valter. Tenho acompanhado e estou vendo que estão fazendo o marketing que Araraquara precisava e se Deus quiser vou morar aqui o resto da minha vida. Se eu puder, vou fazer alguma coisa que Araraquara que traga algo benéfico para a cidade. Acredito que daqui a uns cinco anos essa cidade vai ser a bola da vez.” O administrador de empresas conta que ainda tem muitas coisas para fazer, principalmente na área de eventos e também no que se refere a um projeto que está analisando. “Este projeto vai ajudar bastante esta cidade onde meu pai nasceu, cresceu, produziu e onde também quero fazer o mesmo. Tenho muito gás para queimar ainda”, promete.
(Publicado em 6 de setembro de 2009)
Foto-João Ferraz

Eulália Schiavon


As meninas batizadas com o nome de Eulália demonstram uma forte personalidade. Se depender de Eulália Schiavon, isso é fato. Seu nome significa “bem falante”. Ela faz jus. Aos 83 anos muito bem vividos, conta que mora na mesma casa onde nasceu, na Avenida José Bonifácio. É filha de duas raças danadas, como ela diz: italiana, por parte do pai, Antônio Schiavon, e espanhola do lado mãe, Josepha Rodrigues. Ele de Treviso e ela de Benbible. “Mas sempre se deram bem”. Foi no esporte, como professora de Educação Física formada em 1945 pelo Curso Superior de Educação Física – Escola de Educação Física e Desportes de São Paulo (atual USP) que se encontrou, que fez amigos para a vida toda. “Para bem viver, nada melhor que uma boa atividade física que a educação física e os esportes proporcionam”, ensina ela que foi campeã de atletismo e arremesso de disco. Na época em que estudava em São Paulo, jogou basquete pelo São Paulo, vôlei, além de várias disputas no atletismo nas provas no Tietê. Modesta, não se dá conta de ajudou a escrever um capítulo na história do esporte em Araraquara. Possui inúmeros diplomas e certificações. A grande maioria ligada à área esportiva, como técnicas de bola ao cesto e natação. Sua grande alegria foi ver a evolução do esporte, principalmente no interior, que hoje é um celeiro de grandes craques. Assim, como professora de educação física, Eulália atuou durante 33 anos. Passou praticamente por quase todos os colégios da cidade, como Duque de Caxias, São Bento, Industrial, Ginásio da Vila, Progresso e, em Matão, durante 16 anos. Para os que estão se iniciando na carreira ela lança mão de uma citação do livro de Michel Quoist: “Depois de ter andado bastante, olhe para trás. Olhe o caminho percorrido e você compreenderá porque Deus tinha especialmente reservado para você essa estrada, então, sem reserva nenhuma poderá dizer- lhe ‘obrigada, Senhor!’.

O Departamento

Eulália conta que na década de 50, os ginásios não tinham quadra, assim se juntavam para fazer educação física no Departamento Municipal de Educação Física (hoje Escola Industrial). “Dessa junção foi que nasceu a Festa da Ginástica. Eulália e Julio Mazzei iniciaram a festa modestamente. Era o ano de 1951. “Desde o início propusemos a apresentar não só o fruto do nosso trabalho diário,como também o que havia de melhor no país. Senti de não fazer a 10ª edição. Tínhamos que contar com colaboração, mas não houve interesse de outros professores que achavam a festa muito trabalhosa.” Com a decisão de não se realizar a Festa da Ginástica, partimos para um festival de danças típicas de várias nações. Eu tinha feito alguns cursos internacionais sobre folclore de outros países e aproveitei aquele material para organizar o festival. Junto com as professoras Darci Brunetti e a Célia Janotti.” Revolução Nessa quadra do Departamento passaram grandes atletas como Armando Garlipp, Duque, Dario Gonçalves, Fernando de Oliveira Rocha, Edmilson Laurini, Ari Vargas, entre outros jogadores de basquete que se tornaram famosos como Tales Monteiro, Rosa Branca e Paulo Carvalho, que chegaram à Seleção Paulista e à Seleção Brasileira, disputando as Olimpíadas. Quanto à Educação Física, Eulália conta que foi um período revolucionário, pois, naquela época, o método oficialmente adotado no Brasil era o francês, porém este apresentou muitas falhas, tanto que os soldados franceses na Segunda Guerra Mundial provaram que o preparo físico nos combates deixou muito a desejar. Assim a França inovou e o Brasil também. O Estado de São Paulo foi o pioneiro, lançando os ‘Cursos Internacionais de Aperfeiçoamento Técnico e Pedagógico de Educação Física’, deles participando professores de todo Brasil. Recebemos os melhores mestres internacionais, vindos da França, Suécia, Áustria, Estados Unidos, Argentina. “Desse período em diante a educação física deu uma guinada de 180º graus.”

Jogos de Inverno

Eulália fala dos famosos Jogos de Inverno. “Eram disputados basquete e handball, onde fomos os pioneiros dessa modalidade na cidade. Quanto aos Jogos da Primavera, foram iniciados em 1962. “No 25º Jogos conseguimos o recorde de participantes- 4 mil atletas, numa só modalidade, o voleibol- quatro mil inscritos. “ Em 91 foi comemorado o Jubileu de Prata. Não se disputava apenas na cidade, mas abrangia toda região. Após a aposentadoria do prof. Horácio, os Jogos ficaram sob o comando do prof. Urias Braga Costa, que passou por várias fases: de jogador a técnico e a organizador. Sucedeu Urias, o prof. Fábio Tadeu Reina. Atualmente a Fundesport responde pela realização dos Jogos. Eulália participou como assistente na Olimpíada do México( 68); Munique(72); Montreal (76); Moscou (80). Ao longo de sua trajetória recebeu vários prêmios e homenagens, a última, em 2007, quando recebeu o título de honra ao mérito de autoria do vereador Elias Chediek. Quanto aos amores ela, que é solteira, fala seriamente que amou a bola. “Não tenho vocação para casamento, mas a família é a base sólida de nossas realizações”.

(Publicado em 14 de stembro de 2009)